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Crónicas de Berlinzâncio, XV: «I unBerlin»

O M. é berlinense dos sete costados. Diz-me que os avós diziam que os bisavós já cá viviam, e digo eu que provavelmente os bisavós dos bisavós também. Não gosta do Inverno e pergunta-se sempre - como se fosse uma coisa perguntável - «porque é que há séculos atrás as pessoas decidiram fixar-se aqui, e não noutro ponto mais quente?»
Apesar de sermos de bairros vizinhos, tentamos tomar o nosso café discutido em sítios diferentes. E depois é sempre a discussão sobre o melhor caminho para voltar para casa. Em Berlim a rede de transportes é tão complexa que há sempre imensas alternativas; há mesmo um programa de computador que o calcula por nós.

Como o M. tem pergaminhos berlinenses, quem sou eu para decidir um caminho diferente? Mas o que invariavelmente acaba por acontecer é que o M., distraído na conversa, me diz:
- Ah! Tinha sido melhor irmos por outro caminho!

«Para a semana, quando continuarmos a conversa da semana anterior, sou eu que vou decidir o melhor caminho», pensei para o meu ipod.
À terceira vez que aconteceu, disse-lhe que vou perder a vergonha e começar a ser eu a decidir o caminho para casa. Parece semelhante a um casamento, mas é bem mais importante do que pode parecer em qualquer sociabilidade berlinense.
- Há partes da cidade em que eu não tenho nenhum interesse em ir - disse-me. São buracos no meu mapa da cidade.
Contou-me um projecto que fez na escola de artes sobre isso. 
- Mas quando se tem um estrangeiro na nossa cidade, é a hipótese de a reconhecer. Porque eu quero conhecer a cidade toda, ver tudo, e não ter pontos negros no mapa.
Cofiou a barba.
- You're right. I unBerlin.

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