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Crónicas de Berlinzâncio, XIX: Viktoria Park

Nevava, fora e dentro.
Fiz o meu caminho pela Bergmanstrasse, atravessei em Mehringdamm, continuei. Um manto total, absoluto, caía do céu; os meus pensamentos saíam do chão, voltavam para cima: dois tipos de neve, contrários.
A 2a Sinfonia de Sibelius por Sir Thomas Beecham, a que o M. chama «a versão do sanatório de tuberculose». E a música acontecia: o gelo a arder, o fogo a gelar. Não havia distância entre o pensamento e o acto, entre o sítio que a música abria, representava, alargava, e o lugar físico que eu ocupava, um corpo a atravessar o espaço, a ser.
Ninguém, nada no Parque. Camadas de neve faziam qualquer percurso difícil. Subi ao miradouro. Tudo branco, para os olhos e para os gestos, no perto e no longe. 
- Tu não me páras, cidade - disse, entre os círculos acesos da orquestra de Sibelius. E o silêncio repetiu-o.
Pensei em alguém que sofreu esta música uma noite inteira, e que acordou com demasiada dor no lugar do peito - neve contrária, como quando se recupera o coração.
Um parque no inverno, um jardim conquistado pela neve, um sítio que existe apenas para si. Um mundo lateral ao mundo, suspenso. Sibelius repetia-o, explicava-o.
E tu e eu, cidade, nascemos juntos a cada instante. Oiço o Verão gritar debaixo da neve, abraço-o sozinho com Sibelius. 
Nevava, fora e dentro.

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