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Crónicas de Berlinzâncio, XIV: Angels don't call

A noite caía, invulgarmente quente para esta hora do ano, no Luxembourg, em Rosa-Luxemburg Platz. 30 de Dezembro. As luzes do Volksbuhne já estavam acesas. O Adrian e eu continuávamos a teimar em ficar lá fora, mesmo que estivesse frio. Fumadores inveterados.
- Posso garantir-te - dizia-me - que os anjos de Berlim não telefonam a ninguém. Encontram-se. Pura e simplesmente encontram-se. Nada de sms.
Jurava-lhe o contrário. Havia todo um sistema de comunicação.
- Estou sempre a encontrar as mesmas pessoas que vi no mesmo dia. Elas circulam, fazem uma volta perfeita, reencontramo-nos. E trazem-me sempre os mesmos pensamentos, o mesmo percurso mental que fazia quando os vi da primeira vez. São uma mensagem.
- É nisso que estás enganado - dizia-me Adrian enquanto puxava o tabaco do seu Parisien como se a vida disso dependesse. Os anjos são mensageiros, não mensagens.
- E como é que tu, que és Berlinense, só acreditas nisso? Não achas que é demasiado limitado?
- O teu problema, Pedro [ou Pêdroú, como me chamam aqui], é que tens uma ideia demasiado romântica desta cidade. Eu quero ver quando a vida má e dura te começar a acontecer aqui. A ver se os anjos não voam todos para dentro dos teus livros.
Não lhe disse nada. Não íamos a lado nenhum. Ele tinha de viver o milagre quotidiano que eu experimento aqui. Mesmo agora quando me fecho em casa a acabar o livro, e acontecem coisas comigo fechado que eu nem consigo sequer explicar, como se a cidade viesse ter comigo.
Ficámos parados a acabar a Weiss de trigo. Eu sabia que o Adrian me ia perguntar pelo fim de ano, o Silvester, e só contava quantos segundos seriam até que ele me perguntasse por isso. Nestes dias, quando não há a conversa, é a primeira pergunta. Isso e os conselhos sobre o fogo de artifício.
Mas reparo que ele fecha muito os olhos (porque apesar dos óculos, continua míope). Está a reparar em duas pessoas que vêm da estação de metro, do u-bahn, nesta direcção.
Sorri. Uma das raparigas que caminha, também. Cumprimentam-se. Percebo com o meu pouco alemão que já não se encontravam há muito tempo. Falam da última vez. Apresenta-ma.
- Esta é a Cristine, não nos encontrávamos há seis anos.
Falaram mais uns minutos. Disse-me que pensara em trocar telefones com ela, mas que não o fez. Tínhamos de ir: a 9a de Beethoven no Konzerthaus esperava-nos. «A melhor maneira de acabar o ano», disse-me várias vezes.
Tínhamos uma hora, mas aqui é tudo com antecedência, mesmo que a linha fosse directa e não nos separassem mais de 20 minutos do concerto.
Foi pelo caminho nostálgico, deixando cair uma ou outra lembrança da rapariga. Era uma ex-namorada, tinha acabado mal. Mas agora pareceu simpática. 
- E está ainda mais gira.
Saímos em Hausvoigtplatz. Andámos, ainda a pensar se estaríamos a tempo de outra cerveja, prometendo-a para depois, ao jantar.
A multidão ia-se aproximando da sala. Entrámos. Sentámo-nos. Tínhamos tempo, claro, e ainda fui à casa de banho. E quando volto, ao lado do meu lugar vazio está o Adrian; e ao lado dele, a Cristine, a namorada reencontrada.

Não falámos disto depois - só dos números de telefone que trocaram. Mas o Adrian começou a acreditar nos anjos de Berlim - estou certo.

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