Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2013

Crónicas de Berlinzâncio, XXII: Rihard

Bateram-me à porta de casa anteontem. Pensei que era o correio. Olho pelo olho da porta e vejo um tipo enorme, mais de 2m, com uma franja. Tinha um ar inofensivo, mas não era o carteiro. Pensei que fosse um vizinho a pedir um saca-rolhas (já aconteceu).
- Hallo. Pedro?
«Como é que esta torre sabe como é que eu me chamo?», pensei para mim. O tipo ainda era mais alto e esticado, tinha uma barbinha castanha-clara, olhos verdes, vinha vestido à artista: t-shirt e uma écharpe em cima de um fato de certeza comprado na "Colours" da Bergmanstrasse (um dia falo desta loja). Disse-lhe que sim.
- I'm Rihard, B.'s friend.
Pronto. E aqui assustei-me. A B. é outra rapariga cá de casa, que também não está cá. A verdade é que ninguém me avisou que vinha alguém. Senti-me responsável pela casa. Lá lhe disse que desculpava mas que não tinha sido avisado.
- Sim, ela está a tentar ligar-te desde de manhã.
Valha-me Nossa Senhora de Berlim, pensei para mim. Dei aulas até tão…

Crónicas de Berlinzâncio, XXI: Memórias de memórias de memórias

Éramos seis, entre franceses, alemães e portugueses, a discutir The Four Quartets, de T. S. Eliot. A tentar abrir um texto que abre as suas próprias perguntas com a memória das suas respostas. E de repente, no início do 1º Quarteto, estes versos: Footfalls echo in the memory
Down the passage which we did not take
Towards the door we never opened
Into the rose-garden.

Uma possibilidade de uma possibilidade de uma possibilidade. Uma memória de uma memória de uma memória. Parámos aqui, até nova discussão nos abrir as portas de jardins de jardins de jardins.
Hoje, percebo-o. Uma memória de uma memória de uma memória é como a recordação de alguém, que antes foi tudo e que agora é vazio. É a memória de um sentimento que explodiu o corpo, e que agora é apenas um eco de um excesso perdido. É também, ainda, o presente, o tempo contido no tempo passado, quando, no espaço entre dois batimentos, sabemos que o futuro pode cair absurdamente no passado, e não regressar mais - tal como se perde quem se …

Crónicas de Berlinzâncio, XX: Lietzensee

Crónicas de Berlinzâncio, XIX: Viktoria Park

Nevava, fora e dentro.
Fiz o meu caminho pela Bergmanstrasse, atravessei em Mehringdamm, continuei. Um manto total, absoluto, caía do céu; os meus pensamentos saíam do chão, voltavam para cima: dois tipos de neve, contrários. A 2a Sinfonia de Sibelius por Sir Thomas Beecham, a que o M. chama «a versão do sanatório de tuberculose». E a música acontecia: o gelo a arder, o fogo a gelar. Não havia distância entre o pensamento e o acto, entre o sítio que a música abria, representava, alargava, e o lugar físico que eu ocupava, um corpo a atravessar o espaço, a ser. Ninguém, nada no Parque. Camadas de neve faziam qualquer percurso difícil. Subi ao miradouro. Tudo branco, para os olhos e para os gestos, no perto e no longe.  - Tu não me páras, cidade - disse, entre os círculos acesos da orquestra de Sibelius. E o silêncio repetiu-o. Pensei em alguém que sofreu esta música uma noite inteira, e que acordou com demasiada dor no lugar do peito - neve contrária, como quando se recupera o coração. …

Crónicas de Berlinzâncio, XVIII: Wochenwort

É geralmente quando sabe que eu não consigo fugir da sua atenção, que me prende a cabeça nas mãos e diz: - Olha para os meus lábios e repete.
Eu tento fazê-lo o melhor possível, esquecer o impacto primário e visceral dos seus olhos azuis, e repito:
- Darfst.
É uma sequência de sons alemães muito difícil de dizer. Repito. Olho para o mar dos olhos e imagino que estamos os dois na praia, que "darfst" é uma bebida depois de um dia de sol e de calor, de Mozart escutado abraçados enquanto as janelas derretem. - Darefchte. Risos. Um beijo. Outra vez. - Darfst. Eu, nervoso. Porque é que me pus a aprender a língua mais difícil do universo e arredores quando já passei o meu Bojador? Lá fora começa a cair a noite no lago. - Pedro: Darfst. - Darrrrfchst. - Pedro, é uma palavra, não é uma maldição em bávaro. Mandou-me, medicamente, repetir a palavra sozinho a semana toda. A palavra da semana, "wochenwort", até ser capaz de a dizer decentemente.
Começo a ouvi-la: no metro, nas …

Crónicas de Berlinzâncio, XVII: Berlin lovesong

[Berlin lovesong]

é para ti, cidade, no teu anjo

como uma ruína morre e se torna vida. foi isto, tu comigo, nós. não páras de te criar, cidade velha e nova, noiva. nunca chego suficientemente à tua boca, nunca te tomo todos os lábios de pedra. começas no fim, inventas um rio, guardas o sol num quadro. queres amantes insones, que desfaçam as palavras todas contra o teu corpo. queres o seu fluído limpo, catedral, desejo absoluto. queres a fome dos loucos, que gera toda a gramática do futuro. mas dobro-te as pernas com o meu amor, tomo-te os lugares onde nunca foste amada, bebida, desdobrada. dou-te o meu coração de sangue, se o quiseres - faz com ele uma esquina onde nunca mais um abraço de pedra e carne termine.
sei que nunca vamos chegar um ao outro. é por isso que quero que morramos juntos - dois tempos sobrepostos, como as galáxias amam.
este texto é um fragmento, a ser publicado brevemente

Crónicas de Berlinzâncio, XVI: Nächtlichen Spaziergänge

Passeios nocturnos: é o que significa Nächtlichen Spaziergänge.
São as duas últimas palavras de um poema meu, traduzido pelo Daniel Falb no Verschmmuggel, há seis anos atrás. A verdade é que eu nunca tinha verdadeiramente vivido um passeio nocturno antes de Berlim.
Há seis anos atrás, eu era ainda um rapaz (da idade de M., na verdade), com medo de viajar, em Berlim pela primeira vez. O T., emocionado de voltar a Berlim, de onde era, bebeu um pouco demais. Não conseguia fazer o caminho de regresso para casa. Eram 4h da manhã. Era o meu segundo dia na cidade. Dei-lhe o braço e levei-o a casa. E depois, pela cidade desconhecida e deserta, o rapaz assustado que eu era descobriu sozinho o caminho de volta para o Hotel. Não foi bem assim, porque de facto o que senti é que a cidade se abria para mim, se revelava - que as ruas eram feitas pelos meus passos. Sentia uma segurança e uma liberdade que nunca tinha vivido numa cidade. Sem nenhum medo. Quando se compreende que o dia não é ex…

Crónicas de Berlinzâncio, XV: «I unBerlin»

O M. é berlinense dos sete costados. Diz-me que os avós diziam que os bisavós já cá viviam, e digo eu que provavelmente os bisavós dos bisavós também. Não gosta do Inverno e pergunta-se sempre - como se fosse uma coisa perguntável - «porque é que há séculos atrás as pessoas decidiram fixar-se aqui, e não noutro ponto mais quente?» Apesar de sermos de bairros vizinhos, tentamos tomar o nosso café discutido em sítios diferentes. E depois é sempre a discussão sobre o melhor caminho para voltar para casa. Em Berlim a rede de transportes é tão complexa que há sempre imensas alternativas; há mesmo um programa de computador que o calcula por nós.
Como o M. tem pergaminhos berlinenses, quem sou eu para decidir um caminho diferente? Mas o que invariavelmente acaba por acontecer é que o M., distraído na conversa, me diz: - Ah! Tinha sido melhor irmos por outro caminho!
«Para a semana, quando continuarmos a conversa da semana anterior, sou eu que vou decidir o melhor caminho», pensei para o meu…

Crónicas de Berlinzâncio, XIV: Angels don't call

A noite caía, invulgarmente quente para esta hora do ano, no Luxembourg, em Rosa-Luxemburg Platz. 30 de Dezembro. As luzes do Volksbuhne já estavam acesas. O Adrian e eu continuávamos a teimar em ficar lá fora, mesmo que estivesse frio. Fumadores inveterados. - Posso garantir-te - dizia-me - que os anjos de Berlim não telefonam a ninguém. Encontram-se. Pura e simplesmente encontram-se. Nada de sms. Jurava-lhe o contrário. Havia todo um sistema de comunicação. - Estou sempre a encontrar as mesmas pessoas que vi no mesmo dia. Elas circulam, fazem uma volta perfeita, reencontramo-nos. E trazem-me sempre os mesmos pensamentos, o mesmo percurso mental que fazia quando os vi da primeira vez. São uma mensagem. - É nisso que estás enganado - dizia-me Adrian enquanto puxava o tabaco do seu Parisien como se a vida disso dependesse. Os anjos são mensageiros, não mensagens. - E como é que tu, que és Berlinense, só acreditas nisso? Não achas que é demasiado limitado? - O teu problema, Pedro [ou Pê…