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Crónicas de Berlinzâncio, XI: Brecht-Haus

Há quase sete anos, quando vim a Berlim pela primeira vez, o meu amigo e tradutor Tiago Morais levou-me a ver o cemitério de Dorotheenstadt, mais conhecido por "Cemitério de Brecht". «Os cemitérios na Alemanha não são como em Portugal», dizia-me ele, «são jardins». 
Ao entrar no cemitério, não só achei que ele tinha razão, mas essa razão era também metafórica, alastrante: não só árvores, canteiros, mas «passeios de almas», como diz o verso de Natércia Freire. Não tanto porque seres sem corpo se juntassem a mim nos meus "devaneios de pensador solitário", mas porque as avenidas do cemitério eram largas para que a alma andasse entre o espaço entre a morte e a vida.
A pergunta de Eurípedes, que me ataca desde os meus dezoito anos, soava agora de novo numa paz ecoante, simultaneamente concreta e vaga: «Quem sabe se a vida é morte e a morte é vida?».
No depois deste passeio, escrevi o poema "Cemitério de Brecht", que pode ser encontrado aqui numa excelente tradução inglesa.

Passaram anos. Em festivais de poesia e leituras, leio sempre o poema. Deixa-me um desconforto muito pessoal, uma coisa entre mim e o poema que é sempre de não estar suficientemente vivido. Mas isto é matéria para um ensaio sobre a minha relação com a poesia - não porque eu sinta que tenho alguma luz particular a derramar sobre este tema, mas porque num mundo estupidificadamente tecnológico, a narrativa do homo faber é uma forma de religar ao essencial.

Há dias, no meu novo feriado pessoal, 22 de Novembro, decidi ir à Brecht-Haus. Estava fechada, com uns horários babilónicos que não consegui perceber. Então, entrei no Cemitério. Sabia que tinha visto a campa de Brecht, na minha primeira visita, mas não tinha uma memória clara. Pois vi, com uma espécie de reconhecimento, de pré-sensação. Passeei um pouco mais. Mais adiante, estava uma viúva recente (a campa do marido era do ano passado) a tratá-la, toda vestida de preto, com uma dignidade espantosa. 

Eu não conseguia sair dali. Estava um sol perpendicular. Alguma coisa me fazia ficar, alguma coisa suave. Sentei-me então a escrever com vista para a janela da casa de Brecht. A janela de onde Brecht via o lugar da sua morte - e eu, a ver o lugar da sua vida. Como se, de repente, sem tempo, dois seres que nunca se conheceram se tocassem, cada um do seu lado da morte e da vida.

E abriu-se a última vida do poema.

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