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Balanço anual (e não balanceamento)

Tenho um particular fascínio por estes termos que os políticos usam: não só traduzem um estado de espírito particular do país, mas também e sobretudo o percurso de algumas palavras. Este ano foi a expressão do Ministro das Finanças, Vítor Gaspar: «balanceamento». No estado precipital em que Portugal se encontra, balanceamento é tudo o que não se devia fazer.

Percursos semânticos à parte, retomo uma tradição deste blogue: fazer uma revisão dos livros, filmes, séries, que me fizeram um percurso este ano.
Terei de evitar uma série de livros ligados ao aspecto prático do meu doutoramento, mas serve este proémio para recomendar em absoluto The Swerve - How the Renaissance began, de Stephen Greenblatt, que apesar de ser de 2011, foi editado em Portugal este ano. Greenblatt é o grande teórico vivo, com ferramentas e uma grelha de análise invulgar e sustentada, para além de ser um comunicador que atinge todo o tipo de públicos. Este livro não é propriamente a sua pièce de résistance teórica, mas é um livro aberto, inteligente, corajoso, que permite repensar as relações materiais com o passado.

O romance que mais me marcou foi sem dúvida Goodbye to Berlin, de Christopher Isherwood. É um mosaico de personagens ligado com o caminho autobiográfico de Isherwood em Berlim nos anos 30. É toda uma cidade que aparece, há 70-80 anos atrás, agora perdida, desconhecida. O livro é de uma simplicidade desconcertante, de uma prosa límpida e elegante, e as figuras humanas bem maiores do que a realidade. Claro que a personagem principal é a cidade - este imenso portal histórico, esta fénix que emerge das raízes das ideias e se recria a cada instante. Para quem viveu ou vive Berlim como uma cidade de encontros profundos, o livro cola-se à pele do coração para sempre.

 Já tinha também lido A Amante Holandesa, de Rentes de Carvalho, antes de a Quetzal em boa hora publicar a obra inteira. Mas aproveitei esta chuva generosa e li tudo o que não tinha ainda contactado. Rentes de Carvalho é sem dúvida o maior mestre português de prosa vivo; alia a uma estuária do verbo um sentido de enredo raro em Portugal. Qualquer um dos seus livros é também de uma grandeza e de uma sombra de ambientes e concepções muito perturbadora.

E ainda o romance do meu amigo Francisco Ribeiro Rosa, que será decerto publicado este ano. Uma estreia corajosa, violenta, e sobretudo muito promissora.

Três discos, só. Isto porque este ano passei por uma monomania Haydn que me fez reouvir muitos discos do mestre, e portanto, menos novidades. A excepção foi a brilhante integral que Thomas Fey está a construir na Hanssler. Um Haydn inquieto, uma caixa de ritmos e de contrastes, de uma energia avassaladora, que faz as Sinfonias de Mozart parecerem mais clássicas  e bem comportadas do que nunca. É uma experiência de audição que não posso recomendar mais.
Um outro: os Quartetos de Cordas de Shostakovich, um disco antigo, da Melodya, com o Borodin String Quartet. Escrevi o meu próximo romance, que será editado no início de 2013, ao som deste disco, sobretudo do terrível 8º Quarteto. Pergunto-me se há vida depois disto.
Por último, o mais recente CD dos Divine Comedy, "Bang Goes the Knighthood". Neil Hannon é um criador sem limites, e este CD crítico, corrosivo, inquietante, foge bastante da ironia simpática dos anteriores, para se tornar satírico e mesmo agressivo - tudo com classe. "The Complete Banker" será estudado daqui a anos como a maior afirmação musical contra a crise.

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