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Crónicas de Berlinzâncio, X: Beethoven-Marathon

Dois dias de Beethoven, sem parar, no Kontzerthaus, uma das dezenas de salas de concertos de música clássica em Berlim. O dia foi de magia, porque éramos cinco, de vários cantos da Europa, da alma e do coração: dois queridos amigos franceses apaixonados por Lisboa, uma nova amiga franco-alemã que se quer apaixonar por Lisboa, e uma outra mágica amiga luso-alemã, berlinense de facto. Fomos ouvir a violinista Isabelle Faust tocar o Concerto para Violino de Beethoven: a sensibilidade, a força, a clareza, o toque de alma. Todos saímos no mesmo mistério e no mesmo espanto.
Mas, de véspera, o meu amigo Daniel e eu fomos ouvir um ensaio geral da 7a Sinfonia de Beethoven. Imaginávamos, ambos, sem falar, que teríamos o maestro, Ivan Fischer, em correcções e precisões com a orquestra: ou seja, era uma coisa entre eles a que nós iríamos apenas assistir. Um jogo de futebol para orquestra e árbitro com partitura na mão. Nada disso.
Ivan Fischer chegou, agarrou no microfone e começou a falar com o público. Começou por referir o difícil que seria para Beethoven conceber esta música vital e triunfal quando ouvia mal - e a orquestra começou a tocar muito ao longe, em sons partidos. Depois, o ruído do ouvido de um surdo: e uma máquina de vento tocou no meio da orquestra partida. 
E depois veio uma interpretação brilhante, rítmica, fulgurante: menos inquietante no primeiro andamento como o foi nos outros três. Fischer voltou a explicar antes de cada andamento como via Beethoven, um homem curvado, envelhecido, cheio de mono-ideias musicais: e foi de facto assim que o interpretou, com pequenas melodias estranhas a basearem a música. De um poder revelador.
O ensaio geral era para nós; e só à saída vimos, entre cigarros, o que o maestro tinha colocado num dos cartazes de publicidade da Beethoven-Marathon: «o público é o meu instrumento». Tal como Beethoven, cujos ouvidos continuamos a ser nós.




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