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Crónicas de Berlinzâncio, V: My writing places


É a minha aventura diária: encontrar um sítio onde possa tomar café, preferivelmente fumar (mas não é relevante) e com uma ficha para ligar o meu computador manco de bateria. Vou encontrando cada vez mais, pelo que já tenho uma espécie de agenda de writing places, com as suas energias próprias e, até, com alguns mais indicados do que outros para o tipo de trabalho que pretendo fazer.
O mais inesperado é a minha ekkneipe, literalmente uma taberna do canto, sempre no cruzamento de duas ruas. Fica no cruzamento de Bremenstrasse com Waldenserstrasse (eu, que estou cá a viver uma espécie de Walden), e eu e a minha maravilhosa estalajadeira, não trocando uma palavra de inglês, entendemo-nos como a chuva no mar. Serve-me sempre a melhor cerveja. Sempre vestida de preto, sempre com o seu cabelo ruivo, traz-me essa lanterna bebível nas mãos. Quando vê que acabo, serve-me outra sem pedir. É fiel à Schultheiss, mas às vezes gosta de me surpreender com uma Berliner ou uma Weiss. Leva-me os maços vazios de cigarros sobre a mesa, sem nada. Acende-me as luzes todas para eu escrever. Percebe que sou clássico, e às vezes há um cravo de Scarlatti ou um Mozart pop entre os cds de rock alemão anos 80, Bonny Tyler e afins, ou hits internacionais-cavernosos dos 70. No outro dia, o feliz marido desta nereida dos mares da cerveja pôs mesmo Bruce Springsteen a tocar.
O bar é todo outro programa: é um bar da esquina, muito proletariat, como diziam aqui antes da queda do muro, onde desempregados, reformados e amigos das bjecas se juntam ao fim da tarde. Com mesas de fórmica, bancos de correr misturados com cadeiras modestas mas réplicas de modelos antigos, está forrado a placas amarelas, verticais, de madeira. Para além da televisão enorme, SAMSUNG pois claro, que aqui só se compra o que é alemão, está literalmente forrado de parafernalia do passado: guitarras, duendes, matrículas de carros, muitas máquinas fotográficas antigas; botas de bebé entre jarros velhos e fotografias antigas. Completam a cena anúncios de bebidas, sobretudo cerveja, que mostram que o bar tem mais de trinta anos. E, claro, na parede das escadas, o célebre postal que tatuei a sangue de alma no meu pulso direito: «Moabit ist Beste». Assim, sem exclamação: quando um alemão afirma, não há cá fumfum nem gaitinha.  
Aqui me sento ao fim da tarde ou da noite, e escrevo horas a fio no meu caderno. Não há internet, não há fichas - só um homem iluminado por uma cerveja.

Também o Starbucks de Friedrichstrasse. Eu sou particularmente doente por Friedrichstrasse, sem razões explicáveis, a não ser pela "Dussmann", que tem a maior secção de discos de música clássica do mundo. Aqui, lutar por fichas é difícil, mas o ambiente é internacional e inquieto, entre o trânsito de lattes e macchiatos.

O meu preferido é o St Oberholtz, em Rosenthaler Platz. Fica no cruzamento de quatro ruas, tem uma das escadarias de madeira mais bonitas de Berlim, come-se bem e barato, e está cheio de gente agarrada aos seus computadores a trabalhar. Muitos (designers, sobretudo) vêm com os seus clientes, como o casal que vai abrir um café e que está à minha frente a discutir todos os aspectos do site com o seu designer careca, friorento e nasalado - mas profissional como um panzer.
A música é excelente, o ambiente ainda melhor, e sobretudo sente-se uma energia comum que faz imparavelmente trabalhar. Tem a sugestão para se deixar gorjeta mais divertida que já li: «FACT: Tipping makes you more attractive». Às vezes venho cá para fora, para um cigarro ao frio que acorda os ossos. Sob este sol quente da esplanada, vendo cruzar-se à minha frente o Tram, dezenas de bicicletas, sedgways, alguns carros, as sombras dos edifícios; suavemente amando a forma como Rosenthaler Platz se cruza com Torstrasse; sentindo o cheiro das nogueiras que lembram uma certa casa onde eu fui tanto, e escrevendo com esta luz fotográfica e limpa, sinto que está tudo alinhado no universo. 

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