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A mostrar mensagens de Novembro, 2012

Crónicas de Berlinzâncio, X: Beethoven-Marathon

Dois dias de Beethoven, sem parar, no Kontzerthaus, uma das dezenas de salas de concertos de música clássica em Berlim. O dia foi de magia, porque éramos cinco, de vários cantos da Europa, da alma e do coração: dois queridos amigos franceses apaixonados por Lisboa, uma nova amiga franco-alemã que se quer apaixonar por Lisboa, e uma outra mágica amiga luso-alemã, berlinense de facto. Fomos ouvir a violinista Isabelle Faust tocar o Concerto para Violino de Beethoven: a sensibilidade, a força, a clareza, o toque de alma. Todos saímos no mesmo mistério e no mesmo espanto. Mas, de véspera, o meu amigo Daniel e eu fomos ouvir um ensaio geral da 7a Sinfonia de Beethoven. Imaginávamos, ambos, sem falar, que teríamos o maestro, Ivan Fischer, em correcções e precisões com a orquestra: ou seja, era uma coisa entre eles a que nós iríamos apenas assistir. Um jogo de futebol para orquestra e árbitro com partitura na mão. Nada disso. Ivan Fischer chegou, agarrou no microfone e começou a falar com o …

Crónicas de Berlinzâncio, IX: Goethe happening

Um amigo de Berlim, com quem falo sobre a minha vida com esta cidade (a minha cidade-amante), sempre espantado com as histórias diárias que aqui me acontecem e com a rapidez do meu tempo aqui (cada dia em Berlim é uma semana em Lisboa), mandou-me o seguinte excerto de Goethe: "Avant d'être totalement engagé, l'hésitation nous tenaille, il reste une chance de se soustraire à l'initiative. Toujours la même impuissance devant la création. Il existe une vérité première dont l'ignorance a déjà détruit d'innombrables idées et de superbes projets : au moment où l'on s'engage totalement, la providence éclaire notre chemin. Une quantité d'éléments sur lesquels l'on ne pourrait jamais compter par ailleurs contribue à aider l'individu. La décision engendre un torrent d'événements et l'individu peut alors bénéficier d'un nombre de faits imprévisibles, de rencontres et du soutien matériel que nul n'oserait jamais espérer. Quelle…

Crónicas de Berlinzâncio, VIII: Autobiography happening

Autobiography happening

Esta fotografia é da árvore à porta da casa onde eu voltei a nascer.
Eu tinha dezoito, vinte anos. Todas as vezes que o coração se expandia, que o mundo estranho se tornava entranhado e amplo, eu saía pela porta e esta árvore tornava-se porta: tornava-se o último espaço entre mim e o mundo.
Depois, passou a ser espelho: porque tal como mergulhada na terra, a árvore floria, com ramos e folhas e frutos de uma cor gloriosa, vibrante, também eu tirava coisas da alma e do coração que mudavam os meus próprios passos.
Um dia, a árvore e eu deixámo-nos. E só há dois anos, quando voltei a visitar esta casa, e tirei esta fotografia, é que percebi como aprendi tanto com uma árvore - e como e onde tinha visto pela primeira vez estas cores outonais, vermelhas, um outono glorioso.
Depois veio Boston, e florestas imensas de todas as cores, que fazem até o azul do céu tornar-se mais azul, ou quase dourado. E agora veio Berlim, onde vivo o outono do meu Verão. 
A minha árvore p…

Crónicas de Berlinzâncio, VII: Oldenburger Strasse

Os sinos da Igreja tocavam ao meio-dia dominical, e pela primeira vez vi uma chuva de folhas de árvore. Vermelhas. Caíam sobre o passeio cinzento e a tijoleira da fachada, como uma espécie de água antiga.

Crónicas de Berlinzâncio, VI: Brandenburger Tor

Vou postar, nos próximos dias, alguns poemas do meu livro inédito escrito em Berlim em 2008; porém, alguns poemas foram já publicados em antologias e revistas.

[Brandenburgen Tor]

queria saber a palavra certa para palavra
o que pesa a explosão de uma casa
ou o nascimento de um rio

um arbusto arde depressa demais para o conter
tira a minha morte
como se me tirasses as calças para uma noite de amor

e ouve
nunca voltamos inteiros de uma cidade
o amor do infinito deflagra-nos o crânio
como se fôssemos de bronze
e estradas e ruas de anunciações
valem só o seu peso em nunca

queria saber o lugar certo para perda
para a escada subindo de cinza
mas é ainda tão cedo para os olhos
tão abandono para o início

gostava de ter construído uma infância dentro dos teus muros
mas tu és apenas uma cidade
e eu só um movimento de astros
submerso num futuro de pedra

Crónicas de Berlinzâncio, V: My writing places

É a minha aventura diária: encontrar um sítio onde possa tomar café, preferivelmente fumar (mas não é relevante) e com uma ficha para ligar o meu computador manco de bateria. Vou encontrando cada vez mais, pelo que já tenho uma espécie de agenda de writing places, com as suas energias próprias e, até, com alguns mais indicados do que outros para o tipo de trabalho que pretendo fazer. O mais inesperado é a minha ekkneipe, literalmente uma taberna do canto, sempre no cruzamento de duas ruas. Fica no cruzamento de Bremenstrasse com Waldenserstrasse (eu, que estou cá a viver uma espécie de Walden), e eu e a minha maravilhosa estalajadeira, não trocando uma palavra de inglês, entendemo-nos como a chuva no mar. Serve-me sempre a melhor cerveja. Sempre vestida de preto, sempre com o seu cabelo ruivo, traz-me essa lanterna bebível nas mãos. Quando vê que acabo, serve-me outra sem pedir. É fiel à Schultheiss, mas às vezes gosta de me surpreender com uma Berliner ou uma Weiss. Leva-me os maço…