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La valise a mon ton

Desde há dias que tropeço nela duplamente, no coração e nos pés (sempre achei que estas duas partes do corpo estão mais ligadas do que quaisquer outras, e o amor é uma prova disso: começa no coração e acaba a dar com os pés). 

A imagem é a mesma, o cenário é outro: eu a tropeçar permanentemente numa mala, muito semelhante a esta, há quinze anos atrás, quando mudei de vida completamente. A mesma presença de poço portátil, para onde atirava coisas que se salvariam, de bote salva-vidas, de cápsula do tempo. Os instrumentos da identidade. Isso sempre irritou a minha mãe, que educada e educadoramente me perguntava se ia vestir discos e livros.

Uma mala para uns meses de trabalho e investigação fora; mas a imagem que se cola a mim, que me faz tropeçar os pés, o coração, e agora também os olhos, é a dessa mesma mala de há quinze anos atrás. A de um rapaz que era só alma, coração interior e corpo nenhum; hoje sou o inverso: muito coração, alma interior e corpo demasiado. E a mala passou a ser um espelho negro.

«Tenho a sensação de que tu te divertes tanto contigo que não precisas de mais ninguém»: a frase que ouvi no fim de uma relação amorosa volta também sempre nestes momentos. A afirmação pode ter um outro significado, até mais literal, mas nem era o caso. Passo a vida a discutir comigo, e a ironizar as minhas próprias emoções, ou a levá-las mais a sério do que esperaria. No dia em que este jogo perder os seus limites agradáveis e literários, e passar de um campo de cricket, de um jogo de badmington entre Noel Coward e Agatha Christie para uma batalha, darei muita diversão a psiquiatras.

Penso nisto ao olhar para a mala: «vais estar muito tempo sozinho, pá. Tens a certeza de que não precisas disto ou daquilo?». Passo alguns livros de dentro para fora da mala. E sinto um agradecimento imenso por aquela frase. Penso que os sítios para onde posso ir na minha cabeça, os lugares interiores que vou explorar, serão mais largos que aquela mala. Tiro quase tudo e deixo dois ou três clássicos. Decido que a Mimesis, de Auerbach, tem de cumprir a sua tradição comigo e não pode sair da mala (não há férias em que não a leve comigo).

E a frase de Julien Green abraça-me, como já fez muitas vezes: «The greatest explorer on this earth never takes voyages as long as those of the man who descends to the depth of his heart.» 

Olhos, coração, pés, já estou tropeçado em tudo, tudo se expande numa emoção tchaikovskiana entre o futuro e o passado, o destino e a coragem. E tenho a certeza, claríssima, de que a viagem começa quando se fazem as malas. E a mala é que faz o homem.

Comentários

sakiko wang disse…
Que belo texto, Pedro. Obrigada.

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