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I'm sorry, but I think we are killing you

As estonteantes afirmações de um recente relatório do FMI (que podem ser lidas aqui) seriam, num mundo civilizado, ocasião para uma declaração de guerra. Vou mais longe: o declínio da Europa pós-pós-2ª Guerra, também por causa da recente crise, será provavelmente considerada pelos historiadores do futuro como o fim da época Contemporânea. E a declaração do FMI um episódio tão importante como a divisão do Império Romano em dois, em 395.
Porque, de facto, é a concretização de algo que não funciona.  Depois da morte de Teodósio, em 395, Arcádio e Teodósio dividem o Império a meio: o do Ocidente, com sede então em Milão, e que durará algumas dezenas de anos, e o do Oriente, que ficaria conhecido como Império Bizantino, que durará mais de mil. Ingerível, dividiu-se para tentar combater uma desagregação. 
Assim também a "cura de austeridade": medidas saídas das mãos dos incompetentes e desumanos algozes desta crise, que empobrecem os países em risco e os fazem continuar, ligados à máquina dos seus benevolentes empréstimos, enredados nas estratégias de tortura dos seus próprios assassinos.
Diz o iluminado relatório, um mea culpa sem mea nem culpa, que cada euro de austeridade custa ao país entre 0,9 e 1,7. Note-se a magnífica margem de 0,8 cêntimos, que não chega a ser o dobro de 0,9, ou o povo gritaria. Esta matemática de enganos é um abuso a milhões de pessoas que vivem afogadas numa austeridade que lhes custa o presente e o futuro. É como se dissessem: «Ah, estou a matar-vos? Desculpem, não dei conta...».
Mais: ao reconhecer a sua incompetência, e as receitas erradas, o FMI está abertamente a admitir a falha dos seus programas. A este relatório, se o FMI fosse uma instituição séria, deveria seguir-se uma redução das margens dos empréstimos, um perdão parcial, a urgência de reconfiguração de um novo programa com base no investimento. Pelo menos, da parte dos três governos assistidos por tão brilhante incompetência, a exigência de um programa novo, o aligeirar da receita recessiva.
Estiveram, e estão, a impor à velha Europa um modelo económico com o único objectivo de poluir e derrubar o civilizado e avançado modelo social que a distingue do resto do mundo; que nunca veremos na China; que Obama não conseguiu construir e impor na América (veja-se o saco de boxe que no recente debate se tornou o chamado Obamacare). 
Os Impérios têm de dividir-se: as instituições Europeias têm de uma vez por todas de terminar com o financeirismo e refundar a economia. Todos os cidadãos europeus, arrisco-me a dizê-lo, TODOS, aceitariam anos de esforços e pobreza, para voltar a um sistema de crescimento baseado na economia real. E o que diz o nosso governo? Que o seu grande sonho é "voltar aos mercados". Voltar ao antes. Isto quer dizer que daqui a 10 anos estaremos a passar pelo mesmo. Alguém quer isto?
Divida-se o Império.
Ou, então, faça-se como em Praga em 1618, quando corajosamente se deitou janela abaixo conselheiros imperiais que impunham aos checos medidas inaceitáveis. Dirão alguns: isso deu origem à Guerra dos 30 Anos. Eu respondo: alguém duvida que estamos em guerra? E que este relatório é o pedido de desculpas de uma invasão brutal, e da sua devastação económica e ética?

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