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Crónicas de Berlinzâncio III: Poemfilme

Quatro dias de filmes de poesia; motion poems, como chama um inovador projecto de Minneapolis (que pode ser visto aqui), no Festival Zebra, organizado pela Litteratur Werkstatt Berlin. 
É espantosa a diversidade de poemas e poetas, internacionais, antigos e modernos, e os meios usados nos filmes, desde BD, bonecos, sobreposições de imagens, documentários, intertextos com filmes, animação, narrativas de personagem. O mais impressionante ainda é a qualidade, a criatividade, e o prazer com que estes se filmes se vêem: como portas multidimensionais para o texto. Sobretudo pela liberdade de recriação dos contextos, palavras, situações; há mesmo poemas em que é contada uma história em que o poema aparece como resolução, ou até como confronto, entre a narrativa de imagens e o texto.
Uma das competições é um festival dentro do festival, o Zebrino; isto porque o Festival Zebra inclui também o "Zebrino", um festival de filmes de poesia feito por crianças e em que os júris são as próprias crianças. 
Outra, foi o call feito para todo o mundo para filmes a partir do poema [meine heimat] da jovem poeta Ulrike Almut Sandig. Pode ver-se aqui pela voz da própria, e numa brilhante tradução para inglês por Bradley Schmidt. Participou um português, José Miguel Vitorino, que me prometeu que me enviaria o link para aqui mostrar o brilhante e aclamado filme - o primeiro que fez.

Estas curtas metragens com um poema no centro são um rio de três correntes: trazem a poesia para os formatos curtos, que podem ser vistos em qualquer lugar, menos na tela como no festival Zebra, mais na internet e mesmo num telemóvel; refundam o conceito de curta, ao mesmo tempo que devolvem o poema à linguagem como sua raiz; e fundem imagem e palavra de uma forma nua, em que um precisa do outro para cada movimento, cada imagem, para a sua própria natureza. Quero neste último ponto dizer que um dá a outro uma precisão.

Mostro um excelente filme de Emma Burghardt, do projecto Motion Poems. Com uma poesia tão antiga, variada e extensa como a portuguesa, quando é que isto começa a acontecer em Portugal?

PS: «Filme-Poesia», «Poema em filme», tudo me parece uma má tradução. Prefiro Poemfilme, até porque pode ser lido como uma ordem: «põeemfilme!».

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