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Crónicas de Berlinzâncio, II: Too many films


Rosa-Luxembourg Platz, fim de tarde de um Outono de árvores amarelas, laranja, vermelhas.
Estão sentados na mesa ao lado. Falam inglês. Repara-se mais facilmente nele, cabelo claro comprido com caracóis, bigode que não lhe fica bem, à D'Artagnan, sweat azul justa. Um D'Artagnan-Adão sem vitória de nenhum deles. Ela: cabelo curto (parecem ter trocado de cabeleira), feminina em tudo, olhos verdes, rosto oval e anguloso, bonito de sempre diferente, inquietante.
Estive a trabalhar e só dei pelo murmurar deles quando acendi um cigarro. Antes trocavam mãos, não beijos. Sempre achei que os casais que trocam muito mãos já beijaram demasiadas pessoas erradas, já deram o corpo a muitos enganos. Um namoro de Berlim: relampejante, furioso das raízes do passado ao presente absoluto.
Ela pergunta então, num inglês suave, ferido: 
- What's going to happen with us after I leave?»
Ele não diz nada. Reclina-se no banco como se fosse uma cama. Gato, portanto, é o que ele acha de si mesmo (já há muito que tinha percebido que nem Adão nem D'Artagnan podiam ficar ali muito tempo). E ele começa a citar artigos, autores, coisas cultíssimas e exteriores. O olhar dela não muda, mesmo quando percebe que ele não lhe está a responder directamente.
Ela, de verdade, parece não se importar. Deita a cabeça no joelho dele, depois o queixo, aceitando a não resposta. Ela quer um futuro. Ele espera que o futuro fale por si. Dez minutos de cabeça no joelho e mianços vários. Pararam as mãos. É ela, claro, que volta a perguntar:
- I guess we are done after Berlin, right?
Ela afasta-se do joelho, que já passou de Adão a gato para ser gelatinoso, e olha-o. Levanta-se. Olha-o de cima. Mexe-se nas calças suaves, no corpo todo consciente. Afasta-se e vai.
Ele pega na revista que tem em frente e continua a ler. Como se não fosse nada com ele. E, ao passar uma página, põe a mão esquerda dele em cima da direita.

Há pessoas a quem o cinema faz mal.

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