Avançar para o conteúdo principal

Crónicas de Berlinzâncio, I

[Vou postar em seguida uma série de crónicas acontecidas no passado distante e no mais recente em Berlim; vão todas com o mesmo título, Crónicas de Berlinzâncio, porque para quem ama uma cidade histórica e que nunca morre, Berlim e Bizâncio podem cruzar-se - talvez como o passado distante que se torna mais recente ou até mesmo futuro.]



I. O quadro desapareceu-me.

E o quadro desapareceu-me.
Conhecíamo-nos há cinco anos, o Retrato e eu. Da primeira vez que cá vim, estou certo que ele me chamou. Fiquei com uma conversa só olhos e tinta para daqui a uns anos, quando o meu cérebro estivesse menos preso a hábitos de freira.
Voltei hoje. Estava preparado para essa conversa. Há muito tempo que a preparava. Estudava as falas, preparava-lhe perguntas.
E o quadro desapareceu-me.

Procurei sala a sala, quadro a quadro. Muitas caras conhecidas, muitas paisagens novas. Ao lado do retrato de Carlos II, lá estava a "natureza-morta com livros", que há cinco anos me confirmou a escrita do meu primeiro romance, 333. Mas do retrato que eu procurava, nada. Passo apressado, olhar obsessional, caderno em punho, notei a desconfiança dos guardas do museu. Nova pesquisa, as mesmas salas, os mesmos quadros. O desespero. Passei e fui encontrado por uma nova Cara para os meus segrededos. Mas nada dele, do Retrato.
Saí. Perguntei ao guarda da entrada se havia outra sala, noutro piso. Havia. Respirações fundas de alívio e gáudio. Avanço. Assusto-me, porém, com um som roufenho que terá sido vagamente um dia o "Hino à Alegria" da 9a de Beethoven. Em Alemão, depois em Inglês, depois em Francês, avisavam do fecho iminente da Galeria. E soavam as campainhas enquanto eu descia, corrente preso em busca vagabunda. A senhora loira da sala de baixo parecia estranhar visitas como se eu a tivesse apanhado a sair do banho. Nova pesquisa, nada do quadro. O retrato de Mozart encontrado há poucos anos sorria-me divertido na última sala. Agora percebo porque sorria, porque me queria apontar outra coisa. Mas pela primeira vez o humor de Mozart não me caiu bem.
Subi as escadas ao som do "Hino à Alegria", sentindo o oposto. Terceiro aviso, porém. Sou bem mandado, ainda mais na Alemanha, e saio. Oiço os meus passos nos corredores modernos forrados com séculos de história e sinto a falta de um Rosto que vi há cinco anos e a quem tinha prometido que ia ouvir. Mas desapareceu-me.

O meu avô, um purista no uso da língua, dizia «esqueceu-me isto», «morreu-me um amigo». Daí vem o «desapareceu-me»: mas também pelo sentido duplo que dividia os olhos e a expectativa: parte de mim, de um futuro, desaparecia no desaparecimento do quadro. Em processo, sentir-me desaparecer, viver essa mesma entrada no oblívio.

Ainda tentei perguntar na recepção, mas estava já tudo em "modo lufthansa".
Cigarro à porta, a olhar para a Philarmonie do lado esquerdo, e para o meu caderno de notas esfomeado com as perguntas alinhadas e indecifráveis como estátuas de uma civilização perdida. 

O quadro desapareceu-me.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).
Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.
I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM) Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no co…