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Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2012

Crónicas de Berlinzâncio IV: Um Domingo de manhã

Um Hino, para nos prepararmos para o pior

Estou a escrever um novo livro, muito ao som da banda sonora que coloco em vídeo, com as letras para ser devidamente apreciada. O conteúdo revelará também sobre o que estou a escrever...

Mas não é só para mostrar a mestria dos "The Divine Comedy" que serve este post. Para mim, Neil Hannon dos "Divine", com Rufus Rainwright, são os dois maiores songwriters actuais (o Rufus está um bocado na mó de baixo, mas voltará à tona, estou certo; matéria para outro "post").
Serve só para dar conta da minha preocupação, somada a sondagens preocupantes, somada a emails de amigos americanos. É bastante possível que Romney ganhe as eleições americanas. Se formos a pensar, com a única excepção da Fraulein Merkel, todos os governantes no poder durante a explosão da crise foram "evacuados" dos seus lugares. Será o caso de Obama? Os americanos nunca entenderam o "Obamacare"; por outro lado, aquele Prémio Nobel da Paz atou as mãos a um Presidente que quer…

Crónicas de Berlinzâncio III: Poemfilme

Quatro dias de filmes de poesia; motion poems, como chama um inovador projecto de Minneapolis (que pode ser visto aqui), no Festival Zebra, organizado pela Litteratur Werkstatt Berlin.  É espantosa a diversidade de poemas e poetas, internacionais, antigos e modernos, e os meios usados nos filmes, desde BD, bonecos, sobreposições de imagens, documentários, intertextos com filmes, animação, narrativas de personagem. O mais impressionante ainda é a qualidade, a criatividade, e o prazer com que estes se filmes se vêem: como portas multidimensionais para o texto. Sobretudo pela liberdade de recriação dos contextos, palavras, situações; há mesmo poemas em que é contada uma história em que o poema aparece como resolução, ou até como confronto, entre a narrativa de imagens e o texto. Uma das competições é um festival dentro do festival, o Zebrino; isto porque o Festival Zebra inclui também o "Zebrino", um festival de filmes de poesia feito por crianças e em que os júris são a…

Crónicas de Berlinzâncio, II: Too many films

Rosa-Luxembourg Platz, fim de tarde de um Outono de árvores amarelas, laranja, vermelhas. Estão sentados na mesa ao lado. Falam inglês. Repara-se mais facilmente nele, cabelo claro comprido com caracóis, bigode que não lhe fica bem, à D'Artagnan, sweat azul justa. Um D'Artagnan-Adão sem vitória de nenhum deles. Ela: cabelo curto (parecem ter trocado de cabeleira), feminina em tudo, olhos verdes, rosto oval e anguloso, bonito de sempre diferente, inquietante. Estive a trabalhar e só dei pelo murmurar deles quando acendi um cigarro. Antes trocavam mãos, não beijos. Sempre achei que os casais que trocam muito mãos já beijaram demasiadas pessoas erradas, já deram o corpo a muitos enganos. Um namoro de Berlim: relampejante, furioso das raízes do passado ao presente absoluto. Ela pergunta então, num inglês suave, ferido:  - What's going to happen with us after I leave?» Ele não diz nada. Reclina-se no banco como se fosse uma cama. Gato, portanto, é o que ele acha de si mesmo (j…

Crónicas de Berlinzâncio, I

[Vou postar em seguida uma série de crónicas acontecidas no passado distante e no mais recente em Berlim; vão todas com o mesmo título, Crónicas de Berlinzâncio, porque para quem ama uma cidade histórica e que nunca morre, Berlim e Bizâncio podem cruzar-se - talvez como o passado distante que se torna mais recente ou até mesmo futuro.]


I. O quadro desapareceu-me.

E o quadro desapareceu-me.
Conhecíamo-nos há cinco anos, o Retrato e eu. Da primeira vez que cá vim, estou certo que ele me chamou. Fiquei com uma conversa só olhos e tinta para daqui a uns anos, quando o meu cérebro estivesse menos preso a hábitos de freira. Voltei hoje. Estava preparado para essa conversa. Há muito tempo que a preparava. Estudava as falas, preparava-lhe perguntas. E o quadro desapareceu-me.

Procurei sala a sala, quadro a quadro. Muitas caras conhecidas, muitas paisagens novas. Ao lado do retrato de Carlos II, lá estava a "natureza-morta com livros", que há cinco anos me confirmou a escrita do me…

I'm sorry, but I think we are killing you

As estonteantes afirmações de um recente relatório do FMI (que podem ser lidas aqui) seriam, num mundo civilizado, ocasião para uma declaração de guerra. Vou mais longe: o declínio da Europa pós-pós-2ª Guerra, também por causa da recente crise, será provavelmente considerada pelos historiadores do futuro como o fim da época Contemporânea. E a declaração do FMI um episódio tão importante como a divisão do Império Romano em dois, em 395. Porque, de facto, é a concretização de algo que não funciona.  Depois da morte de Teodósio, em 395, Arcádio e Teodósio dividem o Império a meio: o do Ocidente, com sede então em Milão, e que durará algumas dezenas de anos, e o do Oriente, que ficaria conhecido como Império Bizantino, que durará mais de mil. Ingerível, dividiu-se para tentar combater uma desagregação.  Assim também a "cura de austeridade": medidas saídas das mãos dos incompetentes e desumanos algozes desta crise, que empobrecem os países em risco e os fazem continuar, ligados à…

La valise a mon ton

Desde há dias que tropeço nela duplamente, no coração e nos pés (sempre achei que estas duas partes do corpo estão mais ligadas do que quaisquer outras, e o amor é uma prova disso: começa no coração e acaba a dar com os pés). 
A imagem é a mesma, o cenário é outro: eu a tropeçar permanentemente numa mala, muito semelhante a esta, há quinze anos atrás, quando mudei de vida completamente. A mesma presença de poço portátil, para onde atirava coisas que se salvariam, de bote salva-vidas, de cápsula do tempo. Os instrumentos da identidade. Isso sempre irritou a minha mãe, que educada e educadoramente me perguntava se ia vestir discos e livros.
Uma mala para uns meses de trabalho e investigação fora; mas a imagem que se cola a mim, que me faz tropeçar os pés, o coração, e agora também os olhos, é a dessa mesma mala de há quinze anos atrás. A de um rapaz que era só alma, coração interior e corpo nenhum; hoje sou o inverso: muito coração, alma interior e corpo demasiado. E a mala passou a se…