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Uma procissão do descontentamento

Desci hoje a Avenida da Liberdade até ao Terreiro do Paço, com centenas de milhares de pessoas. 
A manifestação não foi o passeio público de revolta de dia 15 de Setembro. Foi uma procissão, no espaço do antigo passeio público novecentista, com os pendões de cada sindicato, atrás de quem seguiam muitos outros descontentes. E quando digo procissão, digo-o como religioso: milhares de seres unidos numa mesma certeza e com um mesmo fim para além dos seus gestos e actos. E assim foi de tal forma, que éramos tantos que a grande maioria nem conseguiu chegar ao Terreiro do Paço.
Julgo que um número largo de pessoas não participaram precisamente por não quererem outros pendões e grupos que não o da sua indignação. Querem auto-representar-se. Querem uma manifestação não ligada a grupos ou pessoas, mas que seja apenas a soma do desconcerto único, um a um, formando um colectivo. E isto não é um indicador de somenos, bem pelo contrário: é um sintoma da solidão num mundo que a comunicação social e sobretudo a internet aproxima; mas sobretudo da solidão de representação que cada um sente hoje em dia. Não se sente simbolizado num governo eleito, num partido, numa associação. Sente-se, sim, isolado - numa ilha rodeada de injustiça e de presente redutor, a quem a crise veio, muito mais do que roubar direitos básicos e essenciais, demonstrar que já tinham há muito vindo a roubar a voz.

Porém: éramos muitos. Muitos slogans vindos de dentro. E sobretudo a beleza múltipla de ver a multidão formar-se, um a um, de uma indignação que se desacomoda a cada dia que passa. As comparações com o 25 de Abril são frequentes, legítimas, produtivas: mas não estamos a viver manifestações contra o fim de uma ditadura opressiva de dezenas de anos. Estamos a viver algo que desinstala cada um, pessoalmente: é o fim de um modelo, o fim de um sistema. A democracia representativa não vai poder calar este movimento. 

Hoje, nesta procissão de descontentamento, dava cada passo junto dos meus com uma certeza crescente: a Europa está a mudar o mundo. Outra vez. Ou não é para isso que a Europa é? Dizemos agora aos algozes do povo da Europa, como Galileu aos seus inquisidores: Eppur si muove - E contudo, movemo-nos.  Somos, sofremos, e por isso, fazemos e faremos a Mudança.

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