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Jardins para o fim dos tempos: a 5a de Tchaikovsky

Tinha vinte anos - e nesses vinte anos tinha vivido muitos mais. Já tinha mudado completamente de vida duas vezes - e preparava-se a terceira vez. Um ser totalmente novo, mas eu - isso seria possível?
Em casa dos meus avós, onde vivia então, tinha pouco mais que meia dúzia de livros, e uma caixa de madeira. Isto das coisas que interessam. A caixa de madeira era uma sobra de um cabaz de Natal. Porque houve um ano, já no distante Natal de 1997, em que trabalhei dois meses numa empresa de brindes, como fazedor de cabazes de Natal para empresas. A caixa, de madeira de pinho, estava partida do lado esquerdo: os queijos da serra e os vinhos do Alentejo não podiam ficar apresenteados num embrulho indigno. Guardei-a eu para começar aí o meu tesouro. Com o meu trabalho seguinte, empregado de mesa, poupava as gorjetas; e à segunda-feira, dia de folga, rumava fizesse chuva ou sol, tivesse ganhado 2000$ ou muito menos durante a semana graças à "bondade de desconhecidos", para os trocar pelos CDs mais escolhidos e pensados por muitos guias de música clássica. Foram os anos em que troquei literalmente a Bíblia por um dos melhores guias de música clássica alguma vez concebido: Les Indispensables de la Musique Classique, de Piotr Kaminski e Jean-Charles Hoffelé, que só teve edições em 1994, 1995 e 1996. Ainda hoje o guardo e vejo, velho e gasto, mas perfeito nas deduções e na inteligência humoresca das notas, como um mapa de estados de alma em busca de arquitectura.
A caixa de madeira foi-se enchendo, até não caber mais. 
Mas um dos discos - que me custou duas semanas de gorjetas - foi a 5a Sinfonia de Tchaikovsky por Sinopoli. Eram ainda os anos em que Sinopoli produzia discos furiosamente desiguais: este era um dos cumes do seu legs discográfico, mas, por exemplo, a sua 6a de Tchaikovsky uma das maiores decepções que vivi na vida (ofereci-o a uma old flame, enterrando assim duas dores juntas, actividade que a poesia me ensinaria a fazer mais tarde com muito mais proveito).
Anos depois, Sinopoli morreu com um enfarte a dirigir Wagner; e durante muito tempo pensei que tivesse sido parcialmente culpado por isso. Percebi mais tarde que depois de gravar uma 5a de Tchaikovsky assim, não se pode sobreviver.

Voltava do meu trabalho de empregado de mesa tarde e a más horas. De avental e tabuleiro, fazia poemas na cabeça, e imaginava-me a escrevê-los altas horas, com a janela que se abria sobre a tília e a curva da estrada iluminadas pela 5a de Tchaikovsky. O meu pai, meu eterno companheiro de gostos musicais, preferia Mravinsky (a célebre gravação da DG com a 4a, 5a e 6a, gravada no Ocidente nos anos 60). Mas os contrastes, as melodias de um caminho gasto, sobrepondo-se à minha dor do futuro que não cessava nem começava a nascer, esticavam-me o sono e os pensamentos fundos. Vezes sem conta, o CD tocava e voltava a tocar, pela manhã fora. Sei hoje que me fazia crescer o coração.  Imprimia-se, em folhas de poesia juvenil, em anotações de estados alterados, ao ritmo de cigarros sucessivos, misturando-se com Rimbaud, Verlaine, Kavafis, Ruy Belo e Herberto Helder. Vejo hoje a felicidade dessa adolescência tardia, toda música e excessivamente futurada, em que o único mapa para os dias é o caminho que uma sinfonia desenha sobre o corpo.

Alguns críticos chamam à 5a de Tchaikovsky «Fatum»: a sinfonia do destino. É um rótulo, uma redução, uma simplificação. Seja. É de facto uma sinfonia de extremos, em que apenas o 3º andamento, com o seu ritmo de valsa suavemente distante, como a recordação de um outro corpo que tivesse sido o nosso, se mantém na mesma intensidade. Todos os outros andamentos, sobretudo o 2º, oscilam entre a paz mais memorativa e o presente mais dramático. Sinopoli e a London Symphony Orchestra levavam o extremo para além do extremo, com os metais a vibrarem para além da música, e os sopros a serenarem-se quase no fundo do som. Tantos anos eu fui a caixa de ressonância desta música.
O 4º Andamento impõe-se como uma resignação feliz que acaba por tornar-se liberdade. Uma melodia popular russa canta como um regato redescoberto numa terra destruída, e no canto inferior desta paisagem, os metais voltam a desenhar futuros de perdas absolutas - mas glorificadas por toda a fé no impossível. É uma marcha com passos de feridas infinitamente eternizadas. Aristóteles faria com certeza aqui a sua casa.

Recomendo a tal gravação da DG de Mravinsky com a sua Sinfónica de Leninegrado, acoplado com a 4a e a 6a. É talvez mais encenada, mais à flor da pele, perfeitamente excessiva na arquitectura, superando todos os limites do virtuosismo orquestral e radicalmente tchaikovskiana. Ou ainda a velhíssima gravação do muito esquecido Willem Mengelberg (Teldec) com a Concertgebouw; ou, melhor ainda, a recentíssima do juvenil Andras Nilsson (Orfeo), nórdica de ambiente e apaixonada de repente. Koussevizky (EMI, Colecção Great Conductors) e Kletzki (idem). Ou Dorati (Mercury), dançável no abismo. E, sobretudo, a interpretação quase operática de Guido Cantelli, que a gravou poucos meses antes de morrer - dois factos dos quais nunca consegui recuperar completamente.

Um dia, em Barcelona, encontrei na loja do Liceo o DVD do célebre filme Carnegie Hall; um filme sem história mas com muitos dos grandes intérpretes dos anos 50 a tocar ao vivo. Há um excerto inquebrantável, que nem a destruição da Terra poderá apagar, que é Stokowski a dirigir o 2º Andamento. Pela primeira vez neste blogue, posto aqui o video. Cuidado com os vizinhos, e sobretudo, com o batimento cardíaco.
Ainda hoje, muitas versões da sinfonia depois, continuo a jurar por Sinopoli. Depois da invenção do ipod, continuo o ritual pessoal de levar a cópia em CD comigo para todo o lado. E a recordação das noites dessa adolescência tardia cai sobre o meu corpo, rasga-o para o futuro. Esta música ensinou-me a gerar o futuro. Deita-se sobre mim e cria-o comigo. Nunca terei palavras para lho agradecer.

Quando penso na adolescência dos meus sobrinhos - que se aproxima a passos largos - gostava um dia de aparecer nas suas noites fechadas de angústia; naquelas em que se lê Rimbaud e se sofre com o futuro; e mais do que lhes mostrar esta música, conseguir dizer-lhes, com palavras que não firam nem imponham, que eu aqui aprendi o futuro. Se não conseguir, tenho confiança que 5a de Tchaikovsky os procurará um dia, e que a estranha sintaxe dos genes e da sabedoria familiar que navega no sangue lhes faça então abrir os ouvidos do coração a esta música. Ter-lhes-ei então ensinado algo bem mais importante que as orações condicionais ou a diferença entre uma cantiga de amigo ou de amor.

Comentários

moço disse…
Não vais muito à bola com o Abbado, pois não?

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