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Fazer do chão esperança

Fotografia de Filipe Mendonça

Por revolta e por desconcerto, juntei-me aos milhares de pessoas que atravessaram Lisboa do Liceu Camões à Praça de Espanha no dia 15 de Setembro. Por revolta por medidas injustas contra uma população empobrecida; por desconcerto com a forma com que estas medidas são anunciadas, anunciando um desrespeito pela vida de cada um.

Continuo, tantos anos depois de a crise ter começado, sem perceber como se permitiu, tantos anos, tanto conhecimento, tanta tecnologia depois, cair num sistema que repercute o pior de uma sociedade medieval. Em que Igreja e Nobreza são substituídos pelo sistema bancário, que torna reféns os governos, e que explora uma classe cada vez com menos direitos. Servos da gleba, servos dos bancos, é o que somos hoje.

Fui sozinho, e nem um minuto me senti sozinho. As ruas eram feitas do mesmo sentimento de revolta, as pessoas eram uma só. Encontrei depois vários amigos, numa mesma comunhão de alegria pela expressão da indignação. Perguntaram-me muitas pessoas que não foram, antes e depois: «Porque foste?». Era, de facto, mais um corpo a ocupar um espaço. Mas esse espaço era feito de uma revolta digna, limpa, alta por dentro. Mais do que o acto, foi a criação de uma energia colectiva que causa e causará mudanças. Criou-se uma onda interior que, agora ou depois, causará mudanças. Ou não foi assim que as ideias se concretizaram? Ser um corpo parado noutro sítio, resignado, só aumenta a margem de manobra de quem tem o único objectivo de empobrecer a Europa.

Por revolta e por desconcerto, não paro, não me sento, não me empobreço mais: isso seria acrescentar ao roubo de direitos conquistados por várias gerações de antepassados, um roubo mais: o da minha própria consciência. E isso, da Grécia Antiga à Revolução Francesa, da Maria da Fonte ao 25 de Abril, não me roubarão jamais.

 

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