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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2012

Uma procissão do descontentamento

Desci hoje a Avenida da Liberdade até ao Terreiro do Paço, com centenas de milhares de pessoas.  A manifestação não foi o passeio público de revolta de dia 15 de Setembro. Foi uma procissão, no espaço do antigo passeio público novecentista, com os pendões de cada sindicato, atrás de quem seguiam muitos outros descontentes. E quando digo procissão, digo-o como religioso: milhares de seres unidos numa mesma certeza e com um mesmo fim para além dos seus gestos e actos. E assim foi de tal forma, que éramos tantos que a grande maioria nem conseguiu chegar ao Terreiro do Paço. Julgo que um número largo de pessoas não participaram precisamente por não quererem outros pendões e grupos que não o da sua indignação. Querem auto-representar-se. Querem uma manifestação não ligada a grupos ou pessoas, mas que seja apenas a soma do desconcerto único, um a um, formando um colectivo. E isto não é um indicador de somenos, bem pelo contrário: é um sintoma da solidão num mundo que a comunicação social e …

Jardins para o fim dos tempos: a 5a de Tchaikovsky

Tinha vinte anos - e nesses vinte anos tinha vivido muitos mais. Já tinha mudado completamente de vida duas vezes - e preparava-se a terceira vez. Um ser totalmente novo, mas eu - isso seria possível? Em casa dos meus avós, onde vivia então, tinha pouco mais que meia dúzia de livros, e uma caixa de madeira. Isto das coisas que interessam. A caixa de madeira era uma sobra de um cabaz de Natal. Porque houve um ano, já no distante Natal de 1997, em que trabalhei dois meses numa empresa de brindes, como fazedor de cabazes de Natal para empresas. A caixa, de madeira de pinho, estava partida do lado esquerdo: os queijos da serra e os vinhos do Alentejo não podiam ficar apresenteados num embrulho indigno. Guardei-a eu para começar aí o meu tesouro. Com o meu trabalho seguinte, empregado de mesa, poupava as gorjetas; e à segunda-feira, dia de folga, rumava fizesse chuva ou sol, tivesse ganhado 2000$ ou muito menos durante a semana graças à "bondade de desconhecidos", para os trocar…

Os Cortes e as Aranhas

E pacificamente, sem mortes nem feridos, o país calmo acabou com uma medida injusta, a TSU. Era uma medida inqualificável que mexia nas - poucas - únicas coisas sagradas do Estado: a previdência.  Como é que seria possível que o dinheiro poupado, guardado, ganho por tantos reformados que trabalharam ano após ano lhes seria roubado? Qual é o direito que têm de nos roubar um estado de direito?
E o que virá a seguir? O que nos levarão depois?
Eu gostaria de saber o que continuam a ganhar os maravilhosos gestores estatais que nos deixaram nesta situação.
E sobretudo, gostaria que o Governo levasse a Bruxelas a voz de quase um milhão de pessoas que a 15 de Setembro desfiou pelas ruas do país. E dissesse, claramente, aos chefes reais da troika (não aos funcionários que cá vêm fazer o seu trabalho): não podemos mais. Produzimos resultados, não podemos mais.
Estes cortes não são só poupanças: são teias de aranha para acabar com a pequena vida de todos nós. Ou não somos já, e só, apenas insec…

Foi você que pediu um Presidente mudo?

Fazer do chão esperança

Por revolta e por desconcerto, juntei-me aos milhares de pessoas que atravessaram Lisboa do Liceu Camões à Praça de Espanha no dia 15 de Setembro. Por revolta por medidas injustas contra uma população empobrecida; por desconcerto com a forma com que estas medidas são anunciadas, anunciando um desrespeito pela vida de cada um.
Continuo, tantos anos depois de a crise ter começado, sem perceber como se permitiu, tantos anos, tanto conhecimento, tanta tecnologia depois, cair num sistema que repercute o pior de uma sociedade medieval. Em que Igreja e Nobreza são substituídos pelo sistema bancário, que torna reféns os governos, e que explora uma classe cada vez com menos direitos. Servos da gleba, servos dos bancos, é o que somos hoje.
Fui sozinho, e nem um minuto me senti sozinho. As ruas eram feitas do mesmo sentimento de revolta, as pessoas eram uma só. Encontrei depois vários amigos, numa mesma comunhão de alegria pela expressão da indignação. Perguntaram-me muitas pessoas que não fora…