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Histórias infantis para adultos

Não é brilhante nos desempenhos, não é fulgurante nas personagens ou nos enredos, não é de todo candidata a uma das melhores séries de sempre. Depois destes "nãos", está aberto o caminho dos louvores para a série "Grimm", que em Portugal passa no canal Scyfy.

A história é aparentemente simples: um detective, devidamente munido de uma mulher encantadora e de um colega despachado, inicia uma viagem de conhecimento que o leva a compreender que tem poderes especiais. E que há todo um lado oculto da humanidade que lhe era desconhecido. E a série vai por aí fora, sempre com um crescendo de conflito interessante na personagem principal - que se tornaria mais visível se o actor que o interpreta (David Giuntoli) não fosse demasiado brando.
A arquitectura da série é uma das suas maiores qualidades. Em cada episódio há um crime, mas este é construído em intertexto sobre um dos contos dos irmãos Grimm. Nos episódios mais conseguidos, não só se consegue acompanhar a leitura de um dos contos, como também seguir a história original do episódio. E, noutros episódios ainda mais felizes, estas duas linhas cruzam-se e produzem uma terceira leitura, uma espécie de actualização das histórias de Grimm que, postas no início do século XXI, lhes deixam um significado assustador porque intemporal (subreptício inteligente, primário).

Sobretudo, o que me parece mais interessante - e nesse aspecto, muitíssimo mais interessante do que "Era Uma Vez" - é que ao recuperar os contos de Grimm, está-se também a cumprir uma das vertentes do trabalho de levantamento de histórias tradicionais que os dois fizeram. Haverá, em toda a efabulação que as lendas contém, muita imaginação, muita construção amplificada de dados reais; mas também alguma dimensão de real. E é isso que a série consegue melhor: dar inteligentemente a perceber que há um outro lado na nossa vida de todos os dias que anda para além das histórias infantis - e que, como estas, nos ensina a viver no real. Ou ainda há dúvidas de que os contos dos irmãos Grimm eram para os pais das crianças, eram literatura infantil para adultos?

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