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Gore Vidal, Séneca II

Todas as comparações são excessivas; todas as comparações têm, porém, a capacidade de revelar a singularidade de cada elemento da comparação. Assim com Gore Vidal, que ontem caiu no sono de pedra.

Conheci-o no seu Juliano, tinha eu catorze anos. Foi um péssimo primeiro encontro entre um escritor fulgurante, pintor-polvo de muitos cenários em simultâneo, um imperador apóstata, e um adolescente obcecado por ficção histórica.  Eu estava a começar a aprender a ler (ainda hoje não sei completamente), pelo que andei baralhado uns dias com aquela escrita cheia de quebras, montanhas, alusões, jeux d'esprit
Teriam de passar mais dez anos. O Rui deu-me a ler alguns ensaios de United States (Essays 1952-1992). E aí Séneca e Montaigne encontravam-se - e davam um retrato dessa espécie de ironia hiper-consciente e inteligente que era a primeira ferramenta de análise de Gore Vidal: «Montaigne começou a escrever para si mesmo sobre si próprio, e sobre o que ele tinha andado a ler e que se tinha tornado ele próprio». Esta frase, e o livro, nunca mais saíram de perto dos olhos das minhas mãos. 
Uma ironia de um sarcasmo operativo e dissecador, como nos textos sobre Susan Sontag, Norman Mailer e mesmo Tennessee Williams (este, com uma certa ternura).
Os ensaios conseguiam outro milagre: o de ser legíveis por absolutamente todo o tipo de público. E de claramente rejeitarem qualquer discurso universitário. A tradição e os objectivos de Vidal eram bem outros. Séneca e Montaigne, de novo.

The Smithsonian Institute, depois: um livro de uma liberdade de imaginação e enredo que mostrava que Gore Vidal seria capaz de tudo, se interessava por tudo - mas que, como todos os sábios, precisava de uma boa dose de irritação com o mundo para reunir as suas tropas e produzir um livro.

The City and the Pillar: um equilíbrio rigoroso de auto-ficção, em que os jogos de espelhos do século XVIII parecem estar em toda a parte. O livro precisa de uma releitura, pelo virtuosismo e coragem com que Vidal encena e leva mais longe a sua própria biografia. Usar-se como material literário, não como um jogo de ego mas como quem faz monumentos com feridas e abismos.

Assim que, em 2006, Point to Point Navigation foi editado, li-o de um trago. Um livro de memórias no fim da vida, amargurado que fosse pela morte do seu companheiro de cinquenta anos. Agora era Cícero, no seu De Senectute, que ecoava. Se a comparação com Séneca, antes, poderia fazer ressaltar a ironia operativa de um e de outro, agora é Cícero também nos objectivos políticos que Gore nunca escondeu, e que não conseguiu cumprir. Retirado na sua villa italiana, exilou-se do seu país, e ainda mais, exilou-se de si mesmo no seu livro de memórias.

Penso com alguma amargura, ao folhear United States enquanto escrevo este post, que Gore Vidal terá sido a última consciência americana não-economicista. Num tempo em que os pais da América são agora economistas formados no capitalismo selvagem, percebo como Vidal cumpriu o poema de Kavafis, "À Espera dos Bárbaros": foi o último senador do império americano antes de Washington lhes abrir a porta.

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