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O quadro piada cósmica, ou muito mais do que isso

Uma pintora minha amiga - para já, vamos só chamá-la Pintora - teve, nos anos da sua formação, de fazer um exercício. Estava na escola perto da sua casa, lá para o Oeste. Acabou portanto o exercício. E não gostou do resultado. E tanto assim foi que, passados poucos meses, liberta das avaliações, decidiu que o melhor destino do trabalho era o lixo. Impressionante, porque esta Pintora mais valia chamar-se a Papeleira, como Filipe II de Espanha (sim, sou dos poucos que acha que os Filipes foram ilegalmente reis de Portugal): guarda tudo, o Universo e seus arredores. 
Passaram anos, muitos, dez ou doze como os Apóstolos. Muitas obras depois (e não as que anda a fazer agora, que são de menos para a legião de fãs esfomeados pelo seu trabalho que a Pintora tem), acabou há dias um pequeno curso na sua área.
Anteontem, tendo de ir ao local da formação para assinar uns papéis, entrou num gabinete onde nunca tinha ido. Estas coisas da avaliação de tudo, que ela fez e faz com gosto, mas que ainda comentou comigo, antes, que achava ligeiramente exagerada. Entrou no tal gabinete, com uma secretária encimada por um quadro. Espantou-se com o quadro. Pensou: «Eu conheço aquilo. É o meu jogo de cores, é o meu traço, mas o quadro é mau.» Note-se que a Pintora é invulgarmente humilde - daí que uma das hipóteses que tenha levantado seja ainda mais divertida: «Anda alguém a imitar-me?»
A Pintora assina com os seus três nomes. Pedindo à senhora da secretária que estava encimada pelo respectivo misterioso para o ver, notou que estava assinado com os seus dois apelidos. Mais um ponto para a teoria da imitação.
«Mas eu estou certa que nunca tinha pintado isto. A execução não está má. A proporção e o tema é que são maus.» Pronto, agora o quadro virou auto-avaliação, auto-mega-crítica, tornou-se um desagradável espelho.
Picada pela sua curiosidade, e pelo espelho negro, perguntou como o quadro tinha chegado ali.
Aparentemente, estava ali há muitos anos. Foi preciso perguntar a quem de direito, que lá explicou que um rapaz aparecera há uns anos numa empresa em Lisboa a vender quadros. Uma senhora comprou-o, e levou-o depois para ali. 
Confirmava-se. O quadro era dela. E gostado por outros ao ponto de ser salvo do lixo, e vendido, e ser emoldurado, e mantido numa escola de artes.

A Pintora - a minha amiga Estela Baptista Costa - viveu uma grande piada cósmica. Ou não.

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