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Um manjar de Papas


As histórias sobrenaturais precisam do elemento humano: ocupa a maior parte da palavra, precisa desse corpo para existir – sobrenatural. Algo que precisa da existência dos seres, e se constrói por sobre esse corpo.
A história do Papado é disto o exemplo acabado. Como uma instituição humana foi por vezes tomada de uma presença que a transcendeu de ser apenas uma oligarquia religiosa (de que, aliás, há tantos exemplos, mas não tão duradouros, na história do mundo).
Tudo isto se lê – com terror e espanto, como preconizava Aristóteles, que de certeza não pensava numa nova religião universal quando escreveu a sua Poética, e muito menos na tragédia que o Papado foi (é?) – na sustentada e viciante narrativa que John Julius Norwich escreveu - Os Papas - A História (Civilização).
O antigo diplomata Norwich e eu temos uma história de amor: devorei os seus três volumes de História de Bizâncio. A erudição velada, acessível, de que se serve para tornar as figuras históricas próximas, humanas: sentimos, após três parágrafos, que as conhecemos; a facilidade em expor situações complexas numa abordagem concisa mas clara; o cuidado em conclusões com os olhos da época, sem concessões a interpretações que desintegrem o movimento das ideias. Único problema: o aspecto de resumo que Norwich impos a si mesmo: há alguns passos em que visivelmente se cala, e onde seria excelente ouvir a restante narrativa.

A tradução não consegue manter o elegante estilo inglês de Norwich, mas esforça-se. Não se perde porém nada deste dinamismo narrativo que nos prende por um braço e nos leva a passear pelas figuras e pelas igrejas devastadas por guerras e polémicas. O facto de ter escrito sobre Bizâncio ajuda-o a justapor a versão sempre negligenciada do Império Bizantino sobre o Cisma; e o seu fundo conhecimento da História de Itália (também por via das suas Histórias da Sicília e de Veneza, sem falar no monumento que é a sua História do Mediterrâneo) revela a manta complicada de retalhos que a Itália se tornou depois da queda do Império Romano do Ocidente.

O que mais impressiona neste livro é a construção desta monarquia absoluta temporal-espiritual; como passou séculos absolutamente distante das suas intenções. Há mesmo um período da história papal que se chama, convenientemente, "a pornocracia". Uma cortesã governou indirectamente, através de Papas fantoche, dos seus amantes aos seus filhos, o Papado durante décadas. As eleições papais impostas por terceiros, e a frequência de anti-Papas é assustadora. Mas no meio de tantas nuvens, algumas figuras extraordinárias foram marcando o caminho do que hoje conhecemos como a instituição: Gregório Magno, Adriano IV, entre outros.
Sobretudo, a tão reclamada construção de uma tradição a partir de S. Pedro ergue-se com claras dúvidas ao longo do processo histórico. Norwich, como Anglicano de educação e agnóstico de convicção, não faz pender a balança e alimenta-se de documentos de época.

Depois da sua leitura, a vontade de releitura foi tão grande que ainda hoje o recomecei. A narrativa de Norwich e as suas alusões são tão ricas que a leitura parece absolutamente nova. E nesta releitura, também, espanto-me como de facto uma instituição que pode ligar na Terra o que está ligado no Céu e vice-versa, como disse Cristo, conseguiu por vezes vencer Imperadores e homens fechados ao bem e tornar-se, tantas vezes, presença de uma Presença maior. 

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