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Jardins para o fim dos tempos: Sinfonia Nº1 de Jean Sibelius

Esta é a história de um homem que pensava que a música já não lhe traria surpresas.
De um homem que passa meio dia mergulhado em música, e outra metade a sonhar com ela, com os seus ecos a fazerem-lhe os gestos. E que procura música, como oxigénio para a alma (como o espaço natural da sua alma?), e procura dentro da música talvez o seu verdadeiro rosto interior. Um homem que pensa muitas vezes que com tanto excesso de música, ouvida alta nos ouvidos da cabeça e do coração, um dia perderá a audição, suavemente e com prazer, como se deixa de amar para se passar só a amar.
Nesse dia feliz, o homem terá tocado no extremo da música, e ouvirá os ecos das suas obras preferidas, misturadas com as memórias de quando as ouviu. E tudo será mais perto. Um mais perto onde tudo ressoará no seu início e no seu fim.

Mas a música guardou para esse homem uma surpresa. Esse homem conhecia Sibelius, sobretudo a Sinfonia Nº2, levantada ao cosmos por Sir Thomas Beecham. Ou as grandes paisagens secas e líricas da 5ª Sinfonia, ou o desespero crescente da 4ª, ou as florestas em movimento da 3ª, ou o ardor antigo e em carne do Concerto para Violino. Mas, por qualquer jogo do Universo consigo, esse homem não conhecia uma peça guardada no dentro do silêncio - a 1ª Sinfonia. A obra é esta, o homem sou eu.

Escrita entre o pesado virar do século XIX e o XX (1899-1900), foi planificada em Berlim em 1898. Talvez por isso este inquietante universo lírico e heróico me tenha tocado tanto - expandido pela mesma cidade que sacia com sede a minha imaginação.
Depois de uma estreia em 1899, Sibelius reviu-a intensamente, e foi reinterpretada em 1900 com aplausos críticos unânimes, apesar do epíteto "Tchaikovskiana" que mais do que revelar uma inspiração, queria reduzi-la a um exercício de imitação. Que é tudo o que não é.

O primeiro andamento começa com quase um minuto de sons imperceptíveis, uma melodia quase de brisa nos sopros, talvez reflexo da primeira ideia que Sibelius teve de fazer uma sinfonia programática e quase paisagística. Depois, ergue-se um tema lírico, trompeteante, rapidamente entrecruzado por crescendos e decrescendos. Como se a paisagem se auto-destruísse; como um universo interior construído das mais severas e raras ideias, e quebrado por uma dor mais antiga, mais anterior. A luta de uma sensibilidade maior do que um corpo, uma história e um destino. De alguém que triunfa de si mesmo.

Esta música apoderou-se do meu momento; interpretou-o. Passado e futuro combatiam-se, tomando a alma dos instrumentos, alastrando-me por partituras onde o meu próprio coração lutava de si mesmo. Tudo o que eu nascia de mim me morria antes de ser gesto. E a música prossegue-se, como se se auto-destruísse a cada nota, terminando com todos os temas misturados, numa irresolução tão clara como a vida.

O segundo andamento instaura uma tranquilidade assustada; projectos de tubas e dores de tempestades roubam o sonho da alma. Parece o antes do corpo: quando antes de aceitarmos um destino, tudo se mede no peso da luz que uma escolha precisa.

Fantasmas e decisões dançam no terceiro andamento. Uma auto-ironia dirige o baile tocado por uma orquestra de ilusões. Nenhum instrumento é o que diz, toca o que mostra. 

O final, quasi una fantasia como a célebre sonata de Beethoven, parece chamar Mahler. É o próprio movimento da morte, a apossar-se de um corpo e das suas memórias, a despedir-se na mais inglória glória. O sentido cósmico da vida: tudo termina regressando ao primeiro tema, ecoando efeitos do segundo e do terceiro andamentos, com as cordas e os sopros a debaterem-se em direcções opostas.

«Estão a tocar-me, estão a interpretar-me»: como se sobrevive a isto?

Começar com Ormandy (RCA), que se compra em segunda mão na Amazon por uma mão-cheia de caramelos. O próprio Sibelius ouviu o maestro dirigir uma sinfonia sua e agradeceu-lhe a magnífica interpretação: textual, empolgada, sensível.

Paavo Berglund (EMI) é correcto e detalhado. Ainda espero a reedição da sua gravação com a orquestra de Bornemouth, que os Sibelianos proclamam ser tremenda. Sanderling (Berlin Classics) é um jogo de nevoeiros, uma nervopatia transmissível.

Porém, é com Bernstein (DG) que se deve aprender esta Sinfonia. O maestro americano gravou duas versões, uma primeira na Sony, e esta última com a Wiener Philarmoniker mais perto do fim da vida. Tudo é amplificado, estendido até ao mais alto sofrimento, agitado nas suas sombras maiores, nos seus delírios impossíveis. Uma dor heróica. Para ouvir o diálogo silencioso entre a alma e o coração.


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