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a casa suspensa


Já desfiz muitas casas de mortos.

A tia Graça, que deixou as coisas do marido morto há anos exactamente como ele as tinha deixado na noite em que morreu; anos a fio, como se ele pudesse voltar a qualquer momento e ocupar um lugar físico que era de facto o lugar interior que ele ainda era.
A tia Cândida, com cem anos, viúva há cinquenta, com os livros do Tio Heitor intocados, as cartas do banco, do Sporting, das assinaturas de livros.

Mas nunca desfiz uma casa suspensa.
Uma casa feita de textos. Passeio numa casa vazia. Oiço textos nas paredes. Vejo vozes em corredores. Toco no amanhã do ontem - o golpe de luz em que centenas de seres ainda existirão.
Como se guarda, como se suspende isto?

Embalo as minhas coisas. Embalo-me. Sempre a chegar e a partir. De que é que chego, quando é que chega só chegar?
Fecho a porta. Ninguém suspende milhares de vozes. São o chão do futuro, o território de luz onde tudo pode ainda florir. A concretização de muitas esperanças.
Parto. Sempre fui aquele que deixou algo para começar outro algo. Agora só parto, só parto. 

As vozes reúnem-se, reúnem-me. Ainda vou inventar o sítio para onde vou chegar.

É isso, afinal. As casas, dos vivos e dos suspensos, é que estão sempre a chegar e a partir.

Comentários

sakiko wang disse…
Um bonito texto, Pedro. Muito bonito. *

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