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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2012

O quadro piada cósmica, ou muito mais do que isso

Uma pintora minha amiga - para já, vamos só chamá-la Pintora - teve, nos anos da sua formação, de fazer um exercício. Estava na escola perto da sua casa, lá para o Oeste. Acabou portanto o exercício. E não gostou do resultado. E tanto assim foi que, passados poucos meses, liberta das avaliações, decidiu que o melhor destino do trabalho era o lixo. Impressionante, porque esta Pintora mais valia chamar-se a Papeleira, como Filipe II de Espanha (sim, sou dos poucos que acha que os Filipes foram ilegalmente reis de Portugal): guarda tudo, o Universo e seus arredores.  Passaram anos, muitos, dez ou doze como os Apóstolos. Muitas obras depois (e não as que anda a fazer agora, que são de menos para a legião de fãs esfomeados pelo seu trabalho que a Pintora tem), acabou há dias um pequeno curso na sua área. Anteontem, tendo de ir ao local da formação para assinar uns papéis, entrou num gabinete onde nunca tinha ido. Estas coisas da avaliação de tudo, que ela fez e faz com gosto, mas que aind…

a casa suspensa

Já desfiz muitas casas de mortos.

A tia Graça, que deixou as coisas do marido morto há anos exactamente como ele as tinha deixado na noite em que morreu; anos a fio, como se ele pudesse voltar a qualquer momento e ocupar um lugar físico que era de facto o lugar interior que ele ainda era. A tia Cândida, com cem anos, viúva há cinquenta, com os livros do Tio Heitor intocados, as cartas do banco, do Sporting, das assinaturas de livros.
Mas nunca desfiz uma casa suspensa. Uma casa feita de textos. Passeio numa casa vazia. Oiço textos nas paredes. Vejo vozes em corredores. Toco no amanhã do ontem - o golpe de luz em que centenas de seres ainda existirão. Como se guarda, como se suspende isto?
Embalo as minhas coisas. Embalo-me. Sempre a chegar e a partir. De que é que chego, quando é que chega só chegar? Fecho a porta. Ninguém suspende milhares de vozes. São o chão do futuro, o território de luz onde tudo pode ainda florir. A concretização de muitas esperanças. Parto. Sempre fui aquele q…

Dois poemas em prosa de Porto Covo

para Adriano Santos, Catarina do Espírito Santo, Cláudia Barbosa, Cristina Ribeiro da Silva, Daniela Vieitas, Isabelina Jorge, Teresa Avillez-Ereira









i. na minha infância havia uma árvore em chamas, gramática de tumulto, uma maternidade que me crescia de dentro. como uma voz que primeiro invisível sussurrante me fosse subindo até formar uma língua de corpo. agora que a minha infância morreu, suspensa no grito de morte do meu corpo, procuro as maçãs que nunca nasceram na boca da árvore. o prazer de me rasgar para me crescer.  quem sou de mim. de onde cresce em mim? mas a árvore de chamas continua a sua rebentação de cinzas.

ii. o jardim fere-me de todos os lados do passado. é preciso domar a infância para que não suba a escada depois dos olhos. o infinito dói, como a raiz que se corta e cresce na mão que a golpeia. há uma criança sozinha na imagem partida da infância. o jardim cresce e tomará depressa a forma do futuro, se subir os degraus que o corpo desiste.

Um manjar de Papas

As histórias sobrenaturais precisam do elemento humano: ocupa a maior parte da palavra, precisa desse corpo para existir – sobrenatural. Algo que precisa da existência dos seres, e se constrói por sobre esse corpo. A história do Papado é disto o exemplo acabado. Como uma instituição humana foi por vezes tomada de uma presença que a transcendeu de ser apenas uma oligarquia religiosa (de que, aliás, há tantos exemplos, mas não tão duradouros, na história do mundo). Tudo isto se lê – com terror e espanto, como preconizava Aristóteles, que de certeza não pensava numa nova religião universal quando escreveu a sua Poética, e muito menos na tragédia que o Papado foi (é?) – na sustentada e viciante narrativa que John Julius Norwich escreveu - Os Papas - A História (Civilização). O antigo diplomata Norwich e eu temos uma história de amor: devorei os seus três volumes de História de Bizâncio. A erudição velada, acessível, de que se serve para tornar as figuras históricas próximas, humanas: se…

Jardins para o fim dos tempos: Sinfonia Nº1 de Jean Sibelius

Esta é a história de um homem que pensava que a música já não lhe traria surpresas. De um homem que passa meio dia mergulhado em música, e outra metade a sonhar com ela, com os seus ecos a fazerem-lhe os gestos. E que procura música, como oxigénio para a alma (como o espaço natural da sua alma?), e procura dentro da música talvez o seu verdadeiro rosto interior. Um homem que pensa muitas vezes que com tanto excesso de música, ouvida alta nos ouvidos da cabeça e do coração, um dia perderá a audição, suavemente e com prazer, como se deixa de amar para se passar só a amar. Nesse dia feliz, o homem terá tocado no extremo da música, e ouvirá os ecos das suas obras preferidas, misturadas com as memórias de quando as ouviu. E tudo será mais perto. Um mais perto onde tudo ressoará no seu início e no seu fim.
Mas a música guardou para esse homem uma surpresa. Esse homem conhecia Sibelius, sobretudo a Sinfonia Nº2, levantada ao cosmos por Sir Thomas Beecham. Ou as grandes paisagens secas e líri…