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Vivaldi fora dos mapas

O homem não se reduz às Quatro Estações, tornadas hino de elevador e banda sonora da espera em serviços de apoio a cliente. O "padre rosso" (1678-1741) foi um compositor prolífico que explorou diversíssimos registos, modelos, e recuperou formatos antigos imprimindo-lhes a sua marca inconfundível.
O que agora acontece com Vivaldi, na sequência dos últimos trinta, quarenta anos das novas teorias de interpretação da música barroca (instrumentos originais, dimensões das orquestras e coros, tipos de cordas utilizadas, e por aí fora) é a constituição de uma Comissão Vivaldi, que se ocupa a exumar uma série de arquivos, e que tem descoberto, a um ritmo imparável (vivaldiano, diria) centenas de novas obras. E todas a revelar rostos novos de um homem reduzido ao sucesso de uma obra. Sobretudo a biblioteca do Piemonte, mas também em Londres e Dresden (e, com o meu conhecimento de causa, é provável até descobrir-se um concerto de Vivaldi perdido numa biblioteca no Burkina Faso).
A editora Naïve tem-se dedicado a publicar todas estas novidades, entregando cada obra a intérpretes que se identifiquem com as novas obras. O CD cuja imagem nos acompanha (New Discoveries II) ainda está fresco da tipografia sonora, e vem acompanhado da notícia de que a mesma Comissão Vivaldi descobriu mais uma Ópera nova, bem como uma outra peça musical.
De tudo o que tem sido descoberto, há a surpresa das dezenas de Concertos para Fagote, de atmosferas estranhas, onde o instrumento ressoa com uma inventividade inesperada. É um Vivaldi muito diferente, permeável a influências inusitadas, com sons arabescos, venezianos, bizantinos, ásperos e agudos. Oiça-se aqui.

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