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The River isn't dry

 

3 de Junho 2012: concerto de Bruce Springsteen no Rock in Rio Lisboa.



Há clássicos definitivos, absolutos. Não só porque fixam alguma coisa de permanente, de imutável na experiência humana, mas porque são capazes de reinventar-se ao longo do tempo, numa espécie de actualização automática, recuperando sempre a sua mensagem.  Bruce Springsteen é assim.
Cresci a ouvi-lo, não por escolha, mas porque toda a gente em minha casa o ouvia, sobretudo os meus irmãos e primos. Cresceu-me no ouvido e foi até ao coração. Ontem éramos muitos, dos 40 e muitos aos 12, todos ligados por um fio antigo e que não conseguíamos explicar.
Tinha-o ouvido em Lisboa há vinte anos atrás, também a família toda. A mesma energia, agora (ou mais), em alguém que parece funcionar ao contrário da idade. A mesma dedicação sem limites à música e às pessoas, num descentramento impressionante. A mesma fusão com o público. E o que impressiona mais não é apenas a música extraordinária, directa ao coração e à experiência: é a capacidade de reinventar-se, como ouvimos em "Thunder Road". 
Um concerto sem pausas, que começou com "We Take Care of Our Own" que bem pode tornar-se um hino (e qual é a música de Bruce Springsteen que não é) de uma época em que a crise desumaniza.
Para mim, que tirando Bruce Springsteen e os Vampire Weekend, só oiço música clássica e jazz, não tenho dúvidas de que ouvi um concerto de um homem que no século XXIII vai ser uma espécie de Vivaldi: inventivo, contrastante, auto-irónico; e uma espécie de Beethoven, com uma consciência social sempre profunda e inquieta, e uma capacidade de comunicação com os sentimentos mais profundos. Para mim, para além das últimas músicas com fogo de artifício ao fundo, a música que Springsteen contou querer escrever sobre a crise (Talking With The Dead, penso) e acabou por ser uma espécie de diálogo místico e transhistórico mostra alguém que não consegue desligar-se do fluxo da vida. The River hasn't dried, will not ever dry.

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