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O Verão num poema

HOJE, MÃE, CHEGA O VERÃO



Hoje, Mãe, à meia-noite e trinta
e cinco, chega o Verão. Eu vou
esperá-lo na varanda.
Luís Manuel — 8 anos




Sobre as copas das árvores da mata
É que o vias chegar
Deus generoso, antigo
A navegar
Desdobrando os navios coloridos
Dessas manhãs sulinas
A mergulhar nas águas submarinas
Verdes, verdes de jóias e sargaços.

E sob a tarde em brasa
E cantos roucos
De pássaros com sede
Fogem-te azuis os olhos de criança
Para as viagens que se chamam Espanha.
E Julho, Verão, Baviera, são cometas
E carrosséis em límpidas clareiras.
Ouves bronzes de anúncios musicais
No Verão que te pertence e te abraça
No Verão que tu abraças como Irmão
No Verão dos frutos, teus Irmãos também.

Nós somos passageiros, sob tendas
De nómadas, cegando à claridade…

Mas para ti, as lendas
É que são a Verdade.

Natércia Freire
Poesia Completa, Quasi, 2005

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