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Moi, en vaporisation (I)

Montpellier, Abril, fim de tarde. À sombra da pedra amarela, as árvores organizam a Primavera. Abro um caderno de há cinco anos atrás, desses cadernos de capa azul, corredores dos meus dias, perguntas extensas da alma. Leio - e leio quem? Quem eu sou ontem, quem eu fui hoje?
«Que parte de mim serei eu daqui a cinco anos? Que infância e adolescência irrealizada ainda precisa de se cumprir, e se formará com braços de alma que ainda não foram, que aguardam como um rizoma debaixo da terra (como diz Jung) para se expandir e ser?»
Assustei-me. A duplicação do eu é o princípio de todas as doenças psicológicas. Sorrio com a ideia, como se pudesse escolher de um catálogo qual a próxima patologia: sempre soube que uma pessoa "sã" tem um pouco de todas. Temo que uma ganhe às outras. E passo da ideia auto-vigilante para outra, bem mais agradável, enquanto bebo um copo do melhor vinho tinto do mundo, de Saint-Guillem-le-Désert: quem serei eu hoje?
Descontando teorias de reincarnação, em que os destinos antigos se prolongam, resolvem e amplificam a existência actual, penso que a reincarnação pode ser também parcial: as várias encarnações que eu já fui ao longo da minha vida: uma infância assustada pelo infinito, uma adolescência alta de precipícios, uma primeira adultez inquieta e reinventona. Quem de tudo isto sou hoje? Uma soma, sim, mas uma soma tem parcelas; que parcelas?
Olho de novo para o livro-corredor. Quando escrevi (e escrevo) a autobiografia, quando tenho a honra de orientar outros na autobiografia, penso sempre nestas figuras e passagens secretas que nos fazem mudar de um sítio de ser para outro, e que geralmente são as mais esquecidas, as que não contamos no grande inventário da vida. 
Dentro do caderno, outra pista: um retrato de homem do século XVI. Já não se sabe quem foi, só ficou o quadro num museu de Berlim. 
De facto, ser inventor de si próprio é a investigação mais interessante da vida.

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