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Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2012

O Verão num poema

HOJE, MÃE, CHEGA O VERÃO



Hoje, Mãe, à meia-noite e trinta
e cinco, chega o Verão. Eu vou
esperá-lo na varanda.
Luís Manuel — 8 anos




Sobre as copas das árvores da mata
É que o vias chegar
Deus generoso, antigo
A navegar
Desdobrando os navios coloridos
Dessas manhãs sulinas
A mergulhar nas águas submarinas
Verdes, verdes de jóias e sargaços.

E sob a tarde em brasa
E cantos roucos
De pássaros com sede
Fogem-te azuis os olhos de criança
Para as viagens que se chamam Espanha.
E Julho, Verão, Baviera, são cometas
E carrosséis em límpidas clareiras.
Ouves bronzes de anúncios musicais
No Verão que te pertence e te abraça
No Verão que tu abraças como Irmão
No Verão dos frutos, teus Irmãos também.

Nós somos passageiros, sob tendas
De nómadas, cegando à claridade…

Mas para ti, as lendas
É que são a Verdade.

Natércia Freire
Poesia Completa, Quasi, 2005

Vivaldi fora dos mapas

O homem não se reduz às Quatro Estações, tornadas hino de elevador e banda sonora da espera em serviços de apoio a cliente. O "padre rosso" (1678-1741) foi um compositor prolífico que explorou diversíssimos registos, modelos, e recuperou formatos antigos imprimindo-lhes a sua marca inconfundível.
O que agora acontece com Vivaldi, na sequência dos últimos trinta, quarenta anos das novas teorias de interpretação da música barroca (instrumentos originais, dimensões das orquestras e coros, tipos de cordas utilizadas, e por aí fora) é a constituição de uma Comissão Vivaldi, que se ocupa a exumar uma série de arquivos, e que tem descoberto, a um ritmo imparável (vivaldiano, diria) centenas de novas obras. E todas a revelar rostos novos de um homem reduzido ao sucesso de uma obra. Sobretudo a biblioteca do Piemonte, mas também em Londres e Dresden (e, com o meu conhecimento de causa, é provável até descobrir-se um concerto de Vivaldi perdido numa biblioteca no Burkina Faso). A edi…

The River isn't dry

3 de Junho 2012: concerto de Bruce Springsteen no Rock in Rio Lisboa.


Há clássicos definitivos, absolutos. Não só porque fixam alguma coisa de permanente, de imutável na experiência humana, mas porque são capazes de reinventar-se ao longo do tempo, numa espécie de actualização automática, recuperando sempre a sua mensagem.  Bruce Springsteen é assim. Cresci a ouvi-lo, não por escolha, mas porque toda a gente em minha casa o ouvia, sobretudo os meus irmãos e primos. Cresceu-me no ouvido e foi até ao coração. Ontem éramos muitos, dos 40 e muitos aos 12, todos ligados por um fio antigo e que não conseguíamos explicar. Tinha-o ouvido em Lisboa há vinte anos atrás, também a família toda. A mesma energia, agora (ou mais), em alguém que parece funcionar ao contrário da idade. A mesma dedicação sem limites à música e às pessoas, num descentramento impressionante. A mesma fusão com o público. E o que impressiona mais não é apenas a música extraordinária, directa ao coração e à experiência: é…

Moi, en vaporisation (I)

Montpellier, Abril, fim de tarde. À sombra da pedra amarela, as árvores organizam a Primavera. Abro um caderno de há cinco anos atrás, desses cadernos de capa azul, corredores dos meus dias, perguntas extensas da alma. Leio - e leio quem? Quem eu sou ontem, quem eu fui hoje? «Que parte de mim serei eu daqui a cinco anos? Que infância e adolescência irrealizada ainda precisa de se cumprir, e se formará com braços de alma que ainda não foram, que aguardam como um rizoma debaixo da terra (como diz Jung) para se expandir e ser?» Assustei-me. A duplicação do eu é o princípio de todas as doenças psicológicas. Sorrio com a ideia, como se pudesse escolher de um catálogo qual a próxima patologia: sempre soube que uma pessoa "sã" tem um pouco de todas. Temo que uma ganhe às outras. E passo da ideia auto-vigilante para outra, bem mais agradável, enquanto bebo um copo do melhor vinho tinto do mundo, de Saint-Guillem-le-Désert: quem serei eu hoje? Descontando teorias de reincarnação, em…