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«A primeira vez que um homem perdeu um dente ao comer um pudim flan»



«Il est nul». É um pudim flan, vale nada, é um frouxo, não tem consistência.
Isto é o que ouvi Sarkozy e a sua entourage dizerem durante meses de François Hollande, o candidato socialista.
Não foi isso que vi ontem nas duas horas de debate.

Como dizia um comentador na TF1, foi a primeira vez que se viu um homem a partir um dente num pudim flan.

Contra as acusações baratas e infundadas, os números inventados à pressão, a negação das suas próprias palavras (um método de fazer política que será no futuro conhecido como baixo-socratismo), a segurança e a coerência de Hollande foram uma surpresa para mim no início. Que foi morno, cheio de números, e em que Sarkozy tentou de todas as formas irritar ou menorizar o adversário. Hollande nunca foi violento: subiu a voz, marcou posição, respondeu à altura. E depois das primeiras provocações, e respostas às mesmas (com uns "Non" vincados na sua seriedade) voltou o jogo ao adversário e colocou-o à defesa. 
Foi impressionante (até retoricamente) o momento em que Hollande disse "Moi, Président", e desencadeou uma enumeração de "nãos", de recusas, retratos indirectos de Sarkozy, e depois uma outra enumeração de sins, claros e confiantes.
Acho inacreditáveis as opiniões generalizadas de que o debate foi violento e que Hollande foi demasiado duro. Acho que foi de uma força de clareza, de ideias e de recusa que assusta os politiquinhos de facebook de hoje em dia. Que, como disse a Sarkozy, fazem da auto-vitimização a arma da sua vida política.

Segurança na voz, precisão de termos, e umas pausas que nada têm de insegurança mas de reforço, de aprofundamento da afirmação seguinte. Tudo isto gera uma segurança em quem o ouve, uma paz em quem espera a sua acção governativa; sobretudo em contraste com o histerismo gestual e o vocabulário rasteiro do adversário. A cada afirmação de Sarkozy, Hollande construía cada vez mais uma figura de Presidente. Do outro lado, uma gelatina sem princípios, ideias ou lógica, treinado na baixa política e no truque, que envergonhou a cadeira de Presidente da França.

Ao falar da Europa, ao insistir na educação, ao dizer que o seu inimigo é o financeirismo, sabemos que em Bruxelas muita coisa vai mudar. Não é num dia, nem é uma invasão de cavaleiros andantes e líricos; é uma mudança de princípio que termina com anos de vergonha, medievais, em que tão poucos exploraram tanto tantos.

Mais uma vez, a França vai salvar a Europa. E desta vez, para mostrar que é mesmo europeia, até vai escolher um homem que se chama Hollande.

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