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L'Oublieuse Madame




Por motivos de ordem técnica (literalmente), voltei a encontrar o livro de que a seguir falarei, e dentro dele impresso, uma crónica que escrevi há quinze (!) anos atrás. Cá segue com as devidas reservas.

L’OUBLIEUSE MADAME,
Ou uma rosa da Índia para Madame de Staël,

          Aconteceu-me um milagre (uma infusão, portanto): encontrei um livro extraordinário e ele quis-me como seu leitor. Entre mim e ele todo o piquant de Madame de Staël, fugida e espantosa escritora anti-Napoleónica


          E é assim com todos: há os que fogem porque não podem ficar; os que fogem porque não têm para onde ir (e assim sempre se enganam, mudando de ares – quando apenas agitam o ar e provocam tufões nas ilhas Salomão, com o possível desaparecimento das mesmas e o reaparecimento dos seus próprios problemas); e os que fogem porque são tão grandes que ocupam a garganta dos grandes pequenos, dos ditadores e todos aqueles por quem “a dita dura dura”.
          Foi esse o caso de Madame de Staël, Anne Louise Germaine Necker, Madame de Staël-Holstein, lindíssima aristocrata francesa, filha do Ministro das Finanças pré e pós bastilha de Louis XVI, M. Necker. Por tudo isto, pelo seu belo e independente (revolucionário) colo (quanto mais independente mais facilmente rolável pela máquina decepante das incompreensões), a sra. Staël foi forçada a deixar França várias vezes, a mais longa e dolorosa das quais durante o consulado imperial do soldado corso que um cavalo branco tornaria conhecido, sobretudo por causa do Brandy, de uma ilha perdida no Atlântico, arsénico e de duas praças londrinas. Napoleão (é o seu nome) não tolerou o espírito da jovem escritora (autora de romances mas sobretudo panfletos, atirados com a graça certeira de quem lança um lenço para que, depois, a presa nele se embrulhe) e expulsou-a para a Alemanha. Vasto domínio, informe como todo, mas para quem esta arachné teceu todo um fundo estudo cultural que cimentou muita da sua identidade na Literatura, Filosofia, Música e sobretudo alma. Falo de De L’Allemagne, esse livro de viagens e de chegadas, esse volume de tudo onde a graça, o rigor, a comparação, os costumes e a análise funda – sempre no mais vivo, actual, interessantíssimo francês -, triunfam soberanamente. Sem Napoleão, como pensaria Kavafis, este livro não teria nascido, e com ele o primeiro grande tear de unidade nacional alemã (ainda para mais tecida por uma francesa... poderosa ironia...).
          Staël observa e analisa tudo, em dois volumes divididos em várias partes (“Da Alemanha e dos Costumes dos Alemães”, “Literatura e Outras Artes”, “Filosofia e Moral” e “Religião e Entusiasmo”). O foco vai para Goethe, para ela o génio universal; no Cap. VII, a ele dedicado, chega a afirmar que, «se Goethe fosse francês, fá-lo-íamos falar de manhã à noite» («Si Goethe était français, on le ferait parler du matin au soir.»). Mas o que o livro nos traz, num espírito U.E. “avant-la-lettre” é uma constante observação da Alemanha e comparação com outros países – o que revela uma perspicácia e  um conhecimento fabulosos (sendo,  como aponta Álvaro Manuel Machado, uma Comparativista antes do seu tempo); mas sobretudo revela as personalidades de cada nação de uma forma tão evidente e sobretudo tão notavelmente vistas. Dois excertos, para abrir o apetite: «La gaieté des français vient de l’esprit de societé; celle des Italiens, de l’imagination; celle des Anglais, de l’originalité du caractère; la gaieté des Allemands est philosophique. Ils plaisantent avec les choses et avec les livres plutot qu’avec leurs semblables.»  (Cap. XXVIII). «En France, au contraire, chacun aspire à se mériter ce que Montesquieu disait de Voltaire: ‘Il a plus que personne l’esprit que tout le monde a’» (Cap. II).
          Um milagre. Quando os livros nos acontecem assim e pedem que sejamos os seus leitores, e nos levam a viajar para dentro, vale a pena ser vivo.





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