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A esperança ganhou; ganhar a esperança(?)

Estou em França, onde vivi este dia crescente e inquietante. Celebrar uma vitória, entre amigos; sentir a mudança acontecer diante de nós, pelo poder do voto, através de uma luta justa. Num momento de crise, em que tudo parece não já depender de cada indivíduo, mas de grupos que jogam com o destino pessoal de cada um, viver esta vitória enche de esperança e de alegria.

As palavras de Hollande no discurso foram voltadas para a Europa, mas também para si. Foi a primeira vez que ouvi um Presidente fazer um contrato de acção com os seus eleitores, ao indicar o modo de acção com que se vai reger: primeiro a igualdade, primeiro os jovens, sempre a pensar no destino e no sentido de cada decisão. Uma declaração destas, de dentro, dos princípios tornados realidade, mostra também como a anterior presidência não o fez. Que se fez mover por princípios dúbios, afastados do sentido do que é governar: servir o bem comum. E que sobretudo, se virmos as suas promessas de há cinco anos, não cumpriu nenhuma. E isto contra o programa de Hollande, que não propôs vazios, mas um programa coerente que já começou a fazer caminho na Europa, como o crescimento e as eurobonds para fins precisos.
Um homem simples, mas de gestos pensados e sentidos. O momento do discurso, em que se lia no rosto a pena de não poder abraçar a multidão, a pessoa uma a uma; o contrato de confiança e de honestidade que sai das suas palavras. Espero que esta sua atitude mude alguma coisa também nos políticos de plástico que gastam palavras, para que os bancos façam com que as suas políticas de plástico continuem a utilizar as pessoas.

Sentir que vivi uma mudança: de chão e céu, de esperança e de realidade. Quando se vê a terra mudar perante os olhos, e criar um futuro, a vida acontece e é possível. Agora falta mudar a própria mudança, cada dia, para que de facto seja. A esperança ganhou; agora falta ganhar a esperança, fazê-la. Nestes dias, a Lua esteve mais brilhante e próxima que nunca. E tudo isto me lembra uma frase do Padre António Vieira, no "Sermão Histórico e Panegírico", precisamente pronunciado num tempo de mudança enorme na História de Portugal: «O Sol pode fazer dias longos: dias grandes só os fazem e podem fazer as acções.»

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