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A mostrar mensagens de Maio, 2012

L'Oublieuse Madame

Por motivos de ordem técnica (literalmente), voltei a encontrar o livro de que a seguir falarei, e dentro dele impresso, uma crónica que escrevi há quinze (!) anos atrás. Cá segue com as devidas reservas.

Ao contrário de Ozymandias

Ouvir o nome das ruas, os vários rostos de um mar de pedra, o movimento do tempo sobre uma cidade; e ouvi-las na minha língua. Em Zadar, guiado por um grupo de alunos de Português, com a estranha e reconfortante sensação de estar a ver um espaço que a alma já conhecia, na língua da minha alma.
A crise não chega ao valor antigo das línguas, às raízes subterrâneas e aéreas que um idioma funda no mundo. Ver centenas de alunos, quer em Zadar quer em Zagreb, a estudar Português, contra todos os fantasmas de fim que este tempo turbado liberta. Aqueles que inventaram esta crise, e a alimentam, esquecem-se que o mundo já viu muitos impérios, muitas fortunas, muitas glórias desaparecidas em areia. Norman Davies, no seu livro recente Vanished Kingdoms, relembra o célebre poema de Shelley:
My name is Ozymandias, king of kings: Look on my words, ye Mighty, and despair! Nothing beside remains. Round the decay Of that colossal wreck, boundless and bare The lone and level sands stretch far away.
A crise …

A esperança ganhou; ganhar a esperança(?)

Estou em França, onde vivi este dia crescente e inquietante. Celebrar uma vitória, entre amigos; sentir a mudança acontecer diante de nós, pelo poder do voto, através de uma luta justa. Num momento de crise, em que tudo parece não já depender de cada indivíduo, mas de grupos que jogam com o destino pessoal de cada um, viver esta vitória enche de esperança e de alegria.
As palavras de Hollande no discurso foram voltadas para a Europa, mas também para si. Foi a primeira vez que ouvi um Presidente fazer um contrato de acção com os seus eleitores, ao indicar o modo de acção com que se vai reger: primeiro a igualdade, primeiro os jovens, sempre a pensar no destino e no sentido de cada decisão. Uma declaração destas, de dentro, dos princípios tornados realidade, mostra também como a anterior presidência não o fez. Que se fez mover por princípios dúbios, afastados do sentido do que é governar: servir o bem comum. E que sobretudo, se virmos as suas promessas de há cinco anos, não cumpriu nenh…

o concerto do mar

«A primeira vez que um homem perdeu um dente ao comer um pudim flan»

«Il est nul». É um pudim flan, vale nada, é um frouxo, não tem consistência.
Isto é o que ouvi Sarkozy e a sua entourage dizerem durante meses de François Hollande, o candidato socialista. Não foi isso que vi ontem nas duas horas de debate.
Como dizia um comentador na TF1, foi a primeira vez que se viu um homem a partir um dente num pudim flan.

Contra as acusações baratas e infundadas, os números inventados à pressão, a negação das suas próprias palavras (um método de fazer política que será no futuro conhecido como baixo-socratismo), a segurança e a coerência de Hollande foram uma surpresa para mim no início. Que foi morno, cheio de números, e em que Sarkozy tentou de todas as formas irritar ou menorizar o adversário. Hollande nunca foi violento: subiu a voz, marcou posição, respondeu à altura. E depois das primeiras provocações, e respostas às mesmas (com uns "Non" vincados na sua seriedade) voltou o jogo ao adversário e colocou-o à defesa.  Foi impressionante (até retori…