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«Road to Nowhere»??


Estou num autocarro parado no meio de uma auto-estrada algures na Croácia. Num autocarro supostamente a caminho de Split. O condutor e o revisor não falam uma palavra de inglês. Quando entrei, na afadigada estação de autocarros (Kolodvor) de Zagreb, e mostrei o bilhete ao revisor, nem um segundo o olhou e fez-me num gesto cego que pusesse a mala no porão. Mandou-me pagar mais 7 kunas pelo transporte. Novo gesto feroz a indicar que entrasse - e o autocarro saiu já comigo em andamento.
Sentei-me num suspiro, descansei.
E depois, a dúvida. Teriam lido bem o bilhete? Estaria no autocarro certo? A preocupação, sempre presente, sempre o presente: estou no autocarro certo?
Três horas de viagem. Estou no meio da Croácia. A caminho donde?

E de repente, ou mais precisamente, no meio disto, a certeza: isso não me preocupa nada. Do meio da preocupação, a despreocupação: e então?! Vou a caminho de lugar nenhum, não tenho referências. O que me separa de chegar a qualquer lugarejo perdido na Croácia é a atenção de meio segundo de um funcionário croata para quem o inglês é uma variante do norueguês. Isso é tudo o que me separa o meu destino de um lugar nenhum: o erro.
E percebo que o destino é isso: o quase nada que nos separa de lugar nenhum, do vazio.  Ter a consciência disso liberta-me.
O autocarro continua parado. Lá dentro, o restaurante "Macola", uma espécie de retiro de caçadores cheio de ursos e raposas embalsamados. A bomba de gasolina chama-se «INA». E é tudo o que sei donde estou.
Subitamente, ao meu lado enquanto bebo um expresso, oiço falar italiano. Um casal de 50-60 anos pede um ristretto e acena uma nota de cinco euros. Estou perto da costa, é o que isso quer dizer. Olho com quatro olhos (os meus e os da sobrevivência) para a janela que me mostra o autocarro: está lá fora, parado, não sei por quanto tempo. Pago em euros, também. A moeda que não sabemos se acaba amanhã e com ela nos arrasta deu-me uma súbita e estranha sensação de pertença e reconforto. Um cigarro, por isso. Nenhum cigarro sabe melhor nos poucos segundos em que nos sentimos perdidos. E, com a luz bebida nos pulmões, entro na minha pergunta de lata e rodas.
Entro no autocarro, começo estas linhas. Um pouco mais me separa do nada. Uma memória, súbita, não convocada, de um almoço de família ao Sábado, eu sentado ao lado da mãe, as luzes acesas por causa da trovoada, e as lulas com arroz branco a odorarem a casa inteira e a memória. Estamos todos, menos os que ainda não nasceram, os que ainda não foram o nosso destino.
O autocarro começa. Sereno eu e ele.
À direita, numa curva do caminho, uma orgulhosa placa que o vento bóreas quase dobra, em letras brancas sobre verde, indica a direcção para onde vamos: «Split».

Comentários

redonda disse…
Gostava de ter essa coragem e espírito de aventura (viagens assim para mim -sem ser as do destino-, só em livros).

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