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Music for five languages and cigarettes


(Brutal, 7º Festival Internacional de Poesia, Zagreb, Croácia, Abril de 2012)

Seis poetas, a cave de um cinema, cinco línguas (croata, português, alemão, flamengo, sueco). Um concerto de rock mas com a música de poemas para duas vozes. Quase cem pessoas, entre emoções como fumo, cervejas como espuma do entendimento, e um filme de metáforas a projectar-se entre o coração e os olhos. Foi assim o lançamento do 7º Festival de Poesia Brutal.
A magia deste acontecimento não é apenas feita pelo público, mas pelo director e feiticeiro de serviço, Silvestar Vrljic (o blogger não me deixa pôr o acento em cima do c), e pela Serena. Há outra maga, no meu caso particular, a Tanja Tarbuk, que tem traduzido os poetas participantes neste festival (nas sessões anteriores, e apenas para referir alguns, Daniel Jonas, Ana Salomé, Mário Rui de Oliveira, Filipa Leal, José Rui Teixeira).
Não se ouvia cair uma alma durante a leitura.
Penso sempre o caminho que faz um poema dito, no meio de outros, a quem o vem apenas para o ouvir. Para ouvir poemas, para ouvir o poema, para «tirar todo o ouro do dia» às vezes de um único verso. Lembro-me com saudades de quem fui aos 15-20 anos, onde toda a minha sede estava em encontrar um verso que me rasgasse a cabeça e o coração, o único alimento. Hoje sou todas as feridas que toda essa selva sagrada de palavras destruiu e ergueu em mim.
E, grato por isso, tento reproduzi-lo. Um serviço ao silêncio e ao futuro, entre todas as limitações que sou e tenho. E é esse fogo que ainda me espanta, e que quando se reúne, em várias línguas, tem alguma coisa de primitivo interior, sagrado, incombustível ardendo.

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