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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2012

O azul à linha dos olhos

O autocarro parou e eu voei. Paquetes ao fundo, um mar que parece sempre estar mais alto, à linha dos olhos, como se fosse os olhos de um ser maior; um mar alto, um azul esverdeado a reinventar-se. Depois do meu bilhete comprado a correr para Zadar no dia seguinte, 24 horas de Split só para mim.
O hotel era familiar, mas com quartos óptimos. A Alexandra e o Dante, o seu filho, ajudaram-me telefonando loucamente para todos os museus que tivessem bizantinices; só no dia seguinte conseguiria ver. Saí grato e fresco para uma chuva miudinha e chuviscosa. Lá fora, à frente do mar, o Palácio do Imperador romano Diocleciano, integral.
Ao longo dos séculos, fizeram-lhe ruas dentro; moraram dentro das suas paredes, os bizantinos fizeram arcos e janelas, os venezianos torres e mais janelas. A Catedral, circular como as de Bizâncio ou as dos Templários no Norte da Alemanha, esconde tantos segredos juntos que precisei de fechar os olhos porque não aguentava tantas ressonâncias. E depois: horas, h…

Encontro em Split, Encontro com Split

Estou a menos de 30 km de Split. Quase fisicamente numa cidade que descrevi e onde estive várias vezes enquanto escrevia. Vi as suas ruas entornarem as suas histórias sobre o mar; e nunca lá estive. Estou a fazer o caminho ao som da Sonata para piano de Liszt, que escreveu comigo o meu romance 333.  Montanhas, pedras, árvores pequenas quase arbustos, nuvens baixas. Como se se preparasse o irromper de algo grande, maravilhoso, inesperado. Portagens, auto-estrada. Um anúncio do Lidl: "Seriously cheaper. Even on holidays". Já me tinham dito que a costa da Croácia era uma espécie de Algarve. Obrigado ao Lidl pela dica da semana.  Edificios cinzentos, blocos de armazéns. Uma subida. Nuvens a rodear as montanhas, a tocar o autocarro como uma bênção sussurrada. Uma montanha em frente, enorme, em forma de cabeça; corta a visão, parece atirar-nos sobre o nada. Um túnel mais, um desfiladeiro à esquerda, ao passar entre montes irregulares, áridos. E de repente, como se se atravessasse…

«Road to Nowhere»??

Estou num autocarro parado no meio de uma auto-estrada algures na Croácia. Num autocarro supostamente a caminho de Split. O condutor e o revisor não falam uma palavra de inglês. Quando entrei, na afadigada estação de autocarros (Kolodvor) de Zagreb, e mostrei o bilhete ao revisor, nem um segundo o olhou e fez-me num gesto cego que pusesse a mala no porão. Mandou-me pagar mais 7 kunas pelo transporte. Novo gesto feroz a indicar que entrasse - e o autocarro saiu já comigo em andamento. Sentei-me num suspiro, descansei. E depois, a dúvida. Teriam lido bem o bilhete? Estaria no autocarro certo? A preocupação, sempre presente, sempre o presente: estou no autocarro certo? Três horas de viagem. Estou no meio da Croácia. A caminho donde?
E de repente, ou mais precisamente, no meio disto, a certeza: isso não me preocupa nada. Do meio da preocupação, a despreocupação: e então?! Vou a caminho de lugar nenhum, não tenho referências. O que me separa de chegar a qualquer lugarejo perdido na Croácia…

my name is intranquility

(7º Festival de Poesia "Brutal" - Zagreb - dias 3 e 4)

«The names of rivers, of extinct streets»: assim um poema de Tom van de Voorde abre numa paisagem física uma paisagem interior. Assim as duas noites de leitura (12 e 13 de Abril).

Noite 1, 12 de Abril
Bosse Hellsten, com uma voz a ressoar escandinávias, leu os seus poemas; sarcásticos, apenas, a uma primeira leitura, cheios de reencaminhamentos sobre a situação da minoria sueca na Finlândia. Mas depois o texto abre-se, torna-se uma espécie de corredor em que tudo ressoa: «the damn poem is turning inside».
Depois, Martina Vidaic: «to leave a possibility for a root to turn». O lugar das coisas é a sua permanência nos seres, não apenas o que eles são. A voz é suave, quase inexistente; a poesia, o seu oposto absoluto: forte, de uma clareza assustadora. No fim, este que escreve. «Concerto sem orquestra», um poema que estava perdido e que este festival resgatou:
«tirei o coração ao coração
mas ainda sangrava muito eu
ainda …

Music for five languages and cigarettes

(Brutal, 7º Festival Internacional de Poesia, Zagreb, Croácia, Abril de 2012)

Seis poetas, a cave de um cinema, cinco línguas (croata, português, alemão, flamengo, sueco). Um concerto de rock mas com a música de poemas para duas vozes. Quase cem pessoas, entre emoções como fumo, cervejas como espuma do entendimento, e um filme de metáforas a projectar-se entre o coração e os olhos. Foi assim o lançamento do 7º Festival de Poesia Brutal.
A magia deste acontecimento não é apenas feita pelo público, mas pelo director e feiticeiro de serviço, Silvestar Vrljic (o blogger não me deixa pôr o acento em cima do c), e pela Serena. Há outra maga, no meu caso particular, a Tanja Tarbuk, que tem traduzido os poetas participantes neste festival (nas sessões anteriores, e apenas para referir alguns, Daniel Jonas, Ana Salomé, Mário Rui de Oliveira, Filipa Leal, José Rui Teixeira).
Não se ouvia cair uma alma durante a leitura.
Penso sempre o caminho que faz um poema dito, no meio de outros, a quem o …

um alto pedido

Cinco anos de pastor manuscrítico

Cinco anos.
Cinco anos dentro de uma baleia, à procura de manuscritos. Dentro de um tempo natural mas suspenso, à procura do suspenso natural
Nunca me dediquei tanto tempo a um projecto.
Durante anos, achei que quando alguém dizia "ai, os doutoramentos são terríveis" era apenas conversa de malandro. Lamento incluir aqui alguns amigos, mas eles mesmos sabem que eu paguei bem cara a conta deste "achamento".
Acordar, dia após dia, e sentir que mais um pedaço do meu pequeno cérebro estava ocupado com mais uma informação, e que estas se iam empilhando ao ponto em que eu já não sabia quem ocupava quem. Lembrar-me melhor de uma coisa que se passou há quatro séculos do que o que tinha comido esta manhã. Preocupar-me mais com o que certa pessoa fez ou quis fazer em 1667 do que com as más notas a Português de um dos meus sobrinhos.
E papéis, papéis, papéis. Maravilhosos, antigos. Começou por ser um ansiedade apaixonada no estômago. Acabou numa úlcera.
Acabou. Quer dizer, o doutora…

De volta (quase)

de volta dentro de poucos dias. Até lá,




(imagem publicada pelo Monteverdi Choir)