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Mensagens

A mostrar mensagens de 2012

Balanço anual (e não balanceamento)

Tenho um particular fascínio por estes termos que os políticos usam: não só traduzem um estado de espírito particular do país, mas também e sobretudo o percurso de algumas palavras. Este ano foi a expressão do Ministro das Finanças, Vítor Gaspar: «balanceamento». No estado precipital em que Portugal se encontra, balanceamento é tudo o que não se devia fazer.
Percursos semânticos à parte, retomo uma tradição deste blogue: fazer uma revisão dos livros, filmes, séries, que me fizeram um percurso este ano. Terei de evitar uma série de livros ligados ao aspecto prático do meu doutoramento, mas serve este proémio para recomendar em absoluto The Swerve - How the Renaissance began, de Stephen Greenblatt, que apesar de ser de 2011, foi editado em Portugal este ano. Greenblatt é o grande teórico vivo, com ferramentas e uma grelha de análise invulgar e sustentada, para além de ser um comunicador que atinge todo o tipo de públicos. Este livro não é propriamente a sua pièce de résistance teórica, …

Crónicas de Berlinzâncio, XIII: Duas vi(d)as

A vida não é fácil para um flâneur. Para alguém que vai pela cidade, caderno debaixo do braço, percepção aberta, rasgando-se a cada golpe de rua. É sempre a cidade que decide para onde vou. Uma placa, uma pessoa, uma referência, uma memória que se sobrepõe aos passos. Uma entidade com um corpo e uma alma tão longos e presentes que só pretende que eu me perca, para o encontro ser ainda mais simbólico e largo.
Hoje, duas vias. Sem indicações de para onde. Sem sinais. Como se me dissesse: «hoje és tu que decides por ti». Numa, a via do anjo. O símbolo, o abraço, a diferença, a aprendizagem. As pontes, sobre o mar e o céu. Como Jacob, lutar com o anjo, para depois nascer a escada que vem do sonho. Na outra, a via do espelho. O igual diferente, o esperado inesperado, repetir um caminho mas tentar fazê-lo de uma forma diversa, nova. A segurança do real em que se pode ser criador. No anjo, ser criado. No espelho, ser criador.
Hoje, Berlim não decidiu por mim.
Fiquei na esquina, a sentir o c…

O Natal de raízes e frutos brancos

As ruas estão cobertas de um manto branco, as árvores também. Não se percebem se as espantosas iluminações de Natal são reais de neve, ou se não: a tranquilidade profunda do branco torna tudo mais verdadeiro, como se reforçasse os símbolos. Dou passos no branco. Parece um bailado mas também uma benção. Todos os ruídos cessam depois da neve, a cidade torna-se uma aldeia de província. A própria forma de andar se altera, os passos fazem bastante ruído. Tudo se equilibra: a neve faz parar, faz descer para o coração, liga passos mentais e físicos. Há uma consciência de andar, de estar num espaço e num tempo. Como se num tempo anterior, antigo, mas também este, sobreposto. Em que um gesto livre de nascer num país estranho fosse o gesto recriador do mundo, como uma criança em Belém há dois mil anos.
Para mim, o Natal este ano vai ser sem presentes, passado longe da família e das tradições. Este ano vivi e percebi que todas essas coisas, que considerávamos eternas, seguras, fiáveis, p…

Crónicas de Berlinzâncio, XII: Tandem

Estou a aprender Alemão de uma forma muito particular. Os meus amigos de Berlim, todos eles poliglotas, alguns bilingues, foram da opinião que aprender a minha sétima língua de uma forma convencional (fechado numa sala a ter aulas) não me ia servir de muito. E que ia perder tempo para o essencial: misturar-me com a minha cidade, descobri-la, escrever.  Então sento-me todos os dias, 20 minutos, com um livro de gramática. Treino, como fazia (pouco) com o Latim durante tantos anos de Faculdade. E depois? Depois sento-me com um dos meus tandem. São alemães que falam Português e querem melhorar, ou que precisam de começar a falar. Estão em diferentes níveis, muito melhores do que eu, que demoro ainda 2 minutos a formar uma frase de 5 palavras.  Já sem falar da macarronice que falo neste momento, em que para fixar as palavras que aprendo em Alemão, as coloco em qualquer língua que fale. Coisas como isto: «Viste o teller que estava uber das tisch?». Isto é o meu tandem com a outra parte do m…

O que as árvores com neve florescem

Porque florescem de facto, mesmo suspensas, mesmo adiadas numa pele branca, celeste e fria, que as mantém para um futuro que não podem ainda sonhar. Como são pontes entre a terra e o céu, e como são mais humanas que os humanos: braços de terra que frutificam.
Pensam as raízes. Perguntam o céu.
Este poema - e este poemfilme - de Todd Boss (n. 1968) não me larga desde há dias. Converso com as árvores quando passo e elas ensinam-me o que sou eu, o que devo ser.

Crónicas de Berlinzâncio, XI: Brecht-Haus

Há quase sete anos, quando vim a Berlim pela primeira vez, o meu amigo e tradutor Tiago Morais levou-me a ver o cemitério de Dorotheenstadt, mais conhecido por "Cemitério de Brecht". «Os cemitérios na Alemanha não são como em Portugal», dizia-me ele, «são jardins».  Ao entrar no cemitério, não só achei que ele tinha razão, mas essa razão era também metafórica, alastrante: não só árvores, canteiros, mas «passeios de almas», como diz o verso de Natércia Freire. Não tanto porque seres sem corpo se juntassem a mim nos meus "devaneios de pensador solitário", mas porque as avenidas do cemitério eram largas para que a alma andasse entre o espaço entre a morte e a vida. A pergunta de Eurípedes, que me ataca desde os meus dezoito anos, soava agora de novo numa paz ecoante, simultaneamente concreta e vaga: «Quem sabe se a vida é morte e a morte é vida?». No depois deste passeio, escrevi o poema "Cemitério de Brecht", que pode ser encontrado aqui numa excelente tra…

Crónicas de Berlinzâncio, X: Beethoven-Marathon

Dois dias de Beethoven, sem parar, no Kontzerthaus, uma das dezenas de salas de concertos de música clássica em Berlim. O dia foi de magia, porque éramos cinco, de vários cantos da Europa, da alma e do coração: dois queridos amigos franceses apaixonados por Lisboa, uma nova amiga franco-alemã que se quer apaixonar por Lisboa, e uma outra mágica amiga luso-alemã, berlinense de facto. Fomos ouvir a violinista Isabelle Faust tocar o Concerto para Violino de Beethoven: a sensibilidade, a força, a clareza, o toque de alma. Todos saímos no mesmo mistério e no mesmo espanto. Mas, de véspera, o meu amigo Daniel e eu fomos ouvir um ensaio geral da 7a Sinfonia de Beethoven. Imaginávamos, ambos, sem falar, que teríamos o maestro, Ivan Fischer, em correcções e precisões com a orquestra: ou seja, era uma coisa entre eles a que nós iríamos apenas assistir. Um jogo de futebol para orquestra e árbitro com partitura na mão. Nada disso. Ivan Fischer chegou, agarrou no microfone e começou a falar com o …

Crónicas de Berlinzâncio, IX: Goethe happening

Um amigo de Berlim, com quem falo sobre a minha vida com esta cidade (a minha cidade-amante), sempre espantado com as histórias diárias que aqui me acontecem e com a rapidez do meu tempo aqui (cada dia em Berlim é uma semana em Lisboa), mandou-me o seguinte excerto de Goethe: "Avant d'être totalement engagé, l'hésitation nous tenaille, il reste une chance de se soustraire à l'initiative. Toujours la même impuissance devant la création. Il existe une vérité première dont l'ignorance a déjà détruit d'innombrables idées et de superbes projets : au moment où l'on s'engage totalement, la providence éclaire notre chemin. Une quantité d'éléments sur lesquels l'on ne pourrait jamais compter par ailleurs contribue à aider l'individu. La décision engendre un torrent d'événements et l'individu peut alors bénéficier d'un nombre de faits imprévisibles, de rencontres et du soutien matériel que nul n'oserait jamais espérer. Quelle…

Crónicas de Berlinzâncio, VIII: Autobiography happening

Autobiography happening

Esta fotografia é da árvore à porta da casa onde eu voltei a nascer.
Eu tinha dezoito, vinte anos. Todas as vezes que o coração se expandia, que o mundo estranho se tornava entranhado e amplo, eu saía pela porta e esta árvore tornava-se porta: tornava-se o último espaço entre mim e o mundo.
Depois, passou a ser espelho: porque tal como mergulhada na terra, a árvore floria, com ramos e folhas e frutos de uma cor gloriosa, vibrante, também eu tirava coisas da alma e do coração que mudavam os meus próprios passos.
Um dia, a árvore e eu deixámo-nos. E só há dois anos, quando voltei a visitar esta casa, e tirei esta fotografia, é que percebi como aprendi tanto com uma árvore - e como e onde tinha visto pela primeira vez estas cores outonais, vermelhas, um outono glorioso.
Depois veio Boston, e florestas imensas de todas as cores, que fazem até o azul do céu tornar-se mais azul, ou quase dourado. E agora veio Berlim, onde vivo o outono do meu Verão. 
A minha árvore p…

Crónicas de Berlinzâncio, VII: Oldenburger Strasse

Os sinos da Igreja tocavam ao meio-dia dominical, e pela primeira vez vi uma chuva de folhas de árvore. Vermelhas. Caíam sobre o passeio cinzento e a tijoleira da fachada, como uma espécie de água antiga.

Crónicas de Berlinzâncio, VI: Brandenburger Tor

Vou postar, nos próximos dias, alguns poemas do meu livro inédito escrito em Berlim em 2008; porém, alguns poemas foram já publicados em antologias e revistas.

[Brandenburgen Tor]

queria saber a palavra certa para palavra
o que pesa a explosão de uma casa
ou o nascimento de um rio

um arbusto arde depressa demais para o conter
tira a minha morte
como se me tirasses as calças para uma noite de amor

e ouve
nunca voltamos inteiros de uma cidade
o amor do infinito deflagra-nos o crânio
como se fôssemos de bronze
e estradas e ruas de anunciações
valem só o seu peso em nunca

queria saber o lugar certo para perda
para a escada subindo de cinza
mas é ainda tão cedo para os olhos
tão abandono para o início

gostava de ter construído uma infância dentro dos teus muros
mas tu és apenas uma cidade
e eu só um movimento de astros
submerso num futuro de pedra

Crónicas de Berlinzâncio, V: My writing places

É a minha aventura diária: encontrar um sítio onde possa tomar café, preferivelmente fumar (mas não é relevante) e com uma ficha para ligar o meu computador manco de bateria. Vou encontrando cada vez mais, pelo que já tenho uma espécie de agenda de writing places, com as suas energias próprias e, até, com alguns mais indicados do que outros para o tipo de trabalho que pretendo fazer. O mais inesperado é a minha ekkneipe, literalmente uma taberna do canto, sempre no cruzamento de duas ruas. Fica no cruzamento de Bremenstrasse com Waldenserstrasse (eu, que estou cá a viver uma espécie de Walden), e eu e a minha maravilhosa estalajadeira, não trocando uma palavra de inglês, entendemo-nos como a chuva no mar. Serve-me sempre a melhor cerveja. Sempre vestida de preto, sempre com o seu cabelo ruivo, traz-me essa lanterna bebível nas mãos. Quando vê que acabo, serve-me outra sem pedir. É fiel à Schultheiss, mas às vezes gosta de me surpreender com uma Berliner ou uma Weiss. Leva-me os maço…

Crónicas de Berlinzâncio IV: Um Domingo de manhã

Um Hino, para nos prepararmos para o pior

Estou a escrever um novo livro, muito ao som da banda sonora que coloco em vídeo, com as letras para ser devidamente apreciada. O conteúdo revelará também sobre o que estou a escrever...

Mas não é só para mostrar a mestria dos "The Divine Comedy" que serve este post. Para mim, Neil Hannon dos "Divine", com Rufus Rainwright, são os dois maiores songwriters actuais (o Rufus está um bocado na mó de baixo, mas voltará à tona, estou certo; matéria para outro "post").
Serve só para dar conta da minha preocupação, somada a sondagens preocupantes, somada a emails de amigos americanos. É bastante possível que Romney ganhe as eleições americanas. Se formos a pensar, com a única excepção da Fraulein Merkel, todos os governantes no poder durante a explosão da crise foram "evacuados" dos seus lugares. Será o caso de Obama? Os americanos nunca entenderam o "Obamacare"; por outro lado, aquele Prémio Nobel da Paz atou as mãos a um Presidente que quer…

Crónicas de Berlinzâncio III: Poemfilme

Quatro dias de filmes de poesia; motion poems, como chama um inovador projecto de Minneapolis (que pode ser visto aqui), no Festival Zebra, organizado pela Litteratur Werkstatt Berlin.  É espantosa a diversidade de poemas e poetas, internacionais, antigos e modernos, e os meios usados nos filmes, desde BD, bonecos, sobreposições de imagens, documentários, intertextos com filmes, animação, narrativas de personagem. O mais impressionante ainda é a qualidade, a criatividade, e o prazer com que estes se filmes se vêem: como portas multidimensionais para o texto. Sobretudo pela liberdade de recriação dos contextos, palavras, situações; há mesmo poemas em que é contada uma história em que o poema aparece como resolução, ou até como confronto, entre a narrativa de imagens e o texto. Uma das competições é um festival dentro do festival, o Zebrino; isto porque o Festival Zebra inclui também o "Zebrino", um festival de filmes de poesia feito por crianças e em que os júris são a…

Crónicas de Berlinzâncio, II: Too many films

Rosa-Luxembourg Platz, fim de tarde de um Outono de árvores amarelas, laranja, vermelhas. Estão sentados na mesa ao lado. Falam inglês. Repara-se mais facilmente nele, cabelo claro comprido com caracóis, bigode que não lhe fica bem, à D'Artagnan, sweat azul justa. Um D'Artagnan-Adão sem vitória de nenhum deles. Ela: cabelo curto (parecem ter trocado de cabeleira), feminina em tudo, olhos verdes, rosto oval e anguloso, bonito de sempre diferente, inquietante. Estive a trabalhar e só dei pelo murmurar deles quando acendi um cigarro. Antes trocavam mãos, não beijos. Sempre achei que os casais que trocam muito mãos já beijaram demasiadas pessoas erradas, já deram o corpo a muitos enganos. Um namoro de Berlim: relampejante, furioso das raízes do passado ao presente absoluto. Ela pergunta então, num inglês suave, ferido:  - What's going to happen with us after I leave?» Ele não diz nada. Reclina-se no banco como se fosse uma cama. Gato, portanto, é o que ele acha de si mesmo (j…

Crónicas de Berlinzâncio, I

[Vou postar em seguida uma série de crónicas acontecidas no passado distante e no mais recente em Berlim; vão todas com o mesmo título, Crónicas de Berlinzâncio, porque para quem ama uma cidade histórica e que nunca morre, Berlim e Bizâncio podem cruzar-se - talvez como o passado distante que se torna mais recente ou até mesmo futuro.]


I. O quadro desapareceu-me.

E o quadro desapareceu-me.
Conhecíamo-nos há cinco anos, o Retrato e eu. Da primeira vez que cá vim, estou certo que ele me chamou. Fiquei com uma conversa só olhos e tinta para daqui a uns anos, quando o meu cérebro estivesse menos preso a hábitos de freira. Voltei hoje. Estava preparado para essa conversa. Há muito tempo que a preparava. Estudava as falas, preparava-lhe perguntas. E o quadro desapareceu-me.

Procurei sala a sala, quadro a quadro. Muitas caras conhecidas, muitas paisagens novas. Ao lado do retrato de Carlos II, lá estava a "natureza-morta com livros", que há cinco anos me confirmou a escrita do me…

I'm sorry, but I think we are killing you

As estonteantes afirmações de um recente relatório do FMI (que podem ser lidas aqui) seriam, num mundo civilizado, ocasião para uma declaração de guerra. Vou mais longe: o declínio da Europa pós-pós-2ª Guerra, também por causa da recente crise, será provavelmente considerada pelos historiadores do futuro como o fim da época Contemporânea. E a declaração do FMI um episódio tão importante como a divisão do Império Romano em dois, em 395. Porque, de facto, é a concretização de algo que não funciona.  Depois da morte de Teodósio, em 395, Arcádio e Teodósio dividem o Império a meio: o do Ocidente, com sede então em Milão, e que durará algumas dezenas de anos, e o do Oriente, que ficaria conhecido como Império Bizantino, que durará mais de mil. Ingerível, dividiu-se para tentar combater uma desagregação.  Assim também a "cura de austeridade": medidas saídas das mãos dos incompetentes e desumanos algozes desta crise, que empobrecem os países em risco e os fazem continuar, ligados à…

La valise a mon ton

Desde há dias que tropeço nela duplamente, no coração e nos pés (sempre achei que estas duas partes do corpo estão mais ligadas do que quaisquer outras, e o amor é uma prova disso: começa no coração e acaba a dar com os pés). 
A imagem é a mesma, o cenário é outro: eu a tropeçar permanentemente numa mala, muito semelhante a esta, há quinze anos atrás, quando mudei de vida completamente. A mesma presença de poço portátil, para onde atirava coisas que se salvariam, de bote salva-vidas, de cápsula do tempo. Os instrumentos da identidade. Isso sempre irritou a minha mãe, que educada e educadoramente me perguntava se ia vestir discos e livros.
Uma mala para uns meses de trabalho e investigação fora; mas a imagem que se cola a mim, que me faz tropeçar os pés, o coração, e agora também os olhos, é a dessa mesma mala de há quinze anos atrás. A de um rapaz que era só alma, coração interior e corpo nenhum; hoje sou o inverso: muito coração, alma interior e corpo demasiado. E a mala passou a se…

Uma procissão do descontentamento

Desci hoje a Avenida da Liberdade até ao Terreiro do Paço, com centenas de milhares de pessoas.  A manifestação não foi o passeio público de revolta de dia 15 de Setembro. Foi uma procissão, no espaço do antigo passeio público novecentista, com os pendões de cada sindicato, atrás de quem seguiam muitos outros descontentes. E quando digo procissão, digo-o como religioso: milhares de seres unidos numa mesma certeza e com um mesmo fim para além dos seus gestos e actos. E assim foi de tal forma, que éramos tantos que a grande maioria nem conseguiu chegar ao Terreiro do Paço. Julgo que um número largo de pessoas não participaram precisamente por não quererem outros pendões e grupos que não o da sua indignação. Querem auto-representar-se. Querem uma manifestação não ligada a grupos ou pessoas, mas que seja apenas a soma do desconcerto único, um a um, formando um colectivo. E isto não é um indicador de somenos, bem pelo contrário: é um sintoma da solidão num mundo que a comunicação social e …

Jardins para o fim dos tempos: a 5a de Tchaikovsky

Tinha vinte anos - e nesses vinte anos tinha vivido muitos mais. Já tinha mudado completamente de vida duas vezes - e preparava-se a terceira vez. Um ser totalmente novo, mas eu - isso seria possível? Em casa dos meus avós, onde vivia então, tinha pouco mais que meia dúzia de livros, e uma caixa de madeira. Isto das coisas que interessam. A caixa de madeira era uma sobra de um cabaz de Natal. Porque houve um ano, já no distante Natal de 1997, em que trabalhei dois meses numa empresa de brindes, como fazedor de cabazes de Natal para empresas. A caixa, de madeira de pinho, estava partida do lado esquerdo: os queijos da serra e os vinhos do Alentejo não podiam ficar apresenteados num embrulho indigno. Guardei-a eu para começar aí o meu tesouro. Com o meu trabalho seguinte, empregado de mesa, poupava as gorjetas; e à segunda-feira, dia de folga, rumava fizesse chuva ou sol, tivesse ganhado 2000$ ou muito menos durante a semana graças à "bondade de desconhecidos", para os trocar…