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morreu a energia coerente


Penso, a cada passagem de alguém desta vida breve para a vida total, que vou aprendendo a morte; que a morte dos outros é uma escada, uma aprendizagem da minha própria morte. E por isso estranho, hoje, como a morte de alguém que eu não conhecia me pode impressionar tanto.
Falo de Maria José Nogueira Pinto (1952-2011). Não sendo de todo da minha área política, admirei sempre nela a grandeza do olhar, simultaneamente sobre o mais pequeno do humano, e o todo de sentido em que tudo se integra. Admirei a frontalidade, a independência, os valores - nessa totalidade que se chama coerência e que cada vez mais é um bem de primeira necessidade em falta. Admirei sempre a sua energia coerente, que - penso que ela nunca soube - era um dos pilares éticos deste país.
Só posso por isso desejar que cada intervenção, cada gesto, cada atitude, possa deixar marcas, possa deixar esse trabalho invisível e fecundo que perdurará. É em casos assim que a morte não vence, mas frutifica.

Comentários

Maria Teresa disse…
Fui amiga da Zézinha e da mesma área política. Talvez não fôsse capaz de escrever sobre ela o que você escreveu tão bem...
Manuel Alonso disse…
Pedro, passando por aqui fiquei feliz da tua gentileza e afago. A mulher era muito grande, um ser formidável a chamar palhaço a quem tentava disfarçar não ser palhaço (numa reunião de trabalho na assembleia a colega que brincava com assuntos de estado apesar de ser ela a prometida à morte anunciada para dias depois) e dizia querer provar tudo, viver tudo até ao ultimo fôlego. Não me interesso nem me lembro do seu partido, lembro da sua face e do anuncio da sua determinação em manter-se até poucos dias antes. Um ser excepcional. Malonso

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