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Uma Campanha (pouco) Alegre

Esta campanha não se tem mostrado muito alegre. Não é uma piada com o candidato PS/BE, é mesmo uma citação de um título de Eça de Queiroz. E a campanha, que começou morna e interrompida por Natais, entrou no ano Novo com acidez crescente.

Alegre fez debates desastrosos. Parecia cansado, e os pontos fortes em que se estrutura o seu discurso pareciam desaparecer. Frente a Cavaco, o seu verbo fácil apagou-se – mas valeu-lhe uma atitude serena, apesar dos despistes. Não galgou as dificuldades. E estes últimos dias de campanha não têm corrido bem. Há um discurso repetido, há erros de estratégia. Parece falar sempre numa terra de ninguém, evitando temas que firam ou o PS ou o BE: quando o que deveria fazer era procurar que pontos pode usar em comum, e construir um discurso consistente que se apoie nessas forças (foi isso que Obama fez, é isso que Miliband está a fazer em Inglaterra, é isso que Aubry vai fazer se for candidata em França). Mas isso é um problema da esquerda – enredamo-nos muitas vezes em discursos justificativos. Numa entrevista memorável, lembro-me quando Jon Stewart dizia ao Vice-Presidente Biden que os Republicanos estavam sempre unidos, e eram minoria, e os Democratas estavam sempre desavindos, e eram maioria.

Nobre tem sido uma relativa surpresa pela independência e pelo desassombro; mas o discurso é demasiado áereo, por vezes. Terá o voto dos descontentes com um tom de esperança. Lopes é consistente e sereno, e tem feito uma excelente campanha. Coelho é a nota divertida – penso que depois desta aventura nacional, o corsário das ilhas vai tentar ser eleito deputado por Lisboa nas próximas legislativas.

Cavaco foi a surpresa mais negativa da campanha. Já tem sido dito e escrito: os portugueses ficam a conhecê-lo nos casos mal explicados da casa de férias e das acções do BPN, e na frase escandalosa “para ser mais honesto do que eu tem de nascer duas vezes” – que não pode negar ter dito como o fez com o “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. Devo confessar, estou irritado e chocado com a afirmação de que uma segunda volta era prejudicial para o país. Que democrata diz isto? Que democrata tem medo de eleições? Prejudicial para o país é não ter cumprido o seu papel de Presidente no primeiro mandato, é ter sido cúmplice da situação actual. O papel do Presidente não é governar, diz ele. Mas pode chamar o Ministro das Finanças regularmente, pode organizar os seus célebres Roteiros, mas agora sobre economia; pode assinar artigos, se ninguém o ouvir. Não pode é ficar calado.

Uma boa aprendizagem para Cavaco, já muitos o disseram também, era obrigá-lo a uma segunda volta. O caso da primeira eleição, à primeira volta, pode ser visto de muitas formas: foi num primeiro mandato eleito à primeira volta – é verdade; mas por um número de votos inferior a qualquer outro Presidente depois do 25 de Abril. Um facto não cancela o outro, antes esclarece o outro. Para aprender gestos democráticos que revela não ter (ou estar a perder, pode ser da idade), uma segunda volta seria tirar-lhe o tapete. E ele sabe que essa segunda volta está perto – donde o discurso tenso, irritado, de eminência a deixar de ser parda. As sondagens reveladas a 19 e 20 mostram uma descida acentuada, que a manter-se nesta constante, pode implicar uma segunda volta. E ele sabe-o. Desde o excelente debate com Defensor Moura (que só por isso justifica a sua candidatura) que Cavaco está acirrado, irritado, nervoso. Merecia que o país lhe ensinasse alguma coisa, em vez do “Professor” que quer ensinar sempre alguma coisa nenhuma ao país. O cenário de crise não ajuda. Mas desconfio seriamente que o resultado vai ser uma surpresa – e se não houver uma segunda volta, vamos estar muito perto. Que país grande no meio da confusão este se revelaria – que reviravolta de alma nos traria uma segunda volta.

Comentários

Anónimo disse…
Contudo, se é verídico que um democrata não deve ter medo de eleições, portanto não deve espalhar temores de uma segunda volta...

Também o é que nenhum democrata deveria ter medo de aceitar a derrota à primeira.

Esta campanha tem sido de uma assombrosa pobreza, com o condão de frequentemente se parecer mais com uma conversa de café paga a peso de ouro.

Uma pena que Alegre se tenha visto como um unificador da Esquerda que de facto nunca pareceu ser e tenha cometido alguns erros perigosos, o primeiro dos quais a própria candidatura.

É que desde Eanes que todos os presidentes usufruem de dois mandatos, e a regra tem sido que estas eleições para segundos mandatos raramente colocam em jogo candidatos com reais chances de mudar o cenário.

Mais do que o caso BPN e a casa de férias, preocupa-me que uma mulher com 800€ de reforma tenha de ser sustentada pelo marido. Porque o que são faits divers financeiros, comparados com a traição de um deslize freudiano?

Bem haja!

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