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a queda de um símbolo

As eleições presidenciais foram uma sequência de quedas - simbólicas.
Em primeiro lugar dos partidos. Quando um quarto dos votos foi para candidatos contra o sistema (Nobre e Coelho), e ainda para mais nas eleições que representam a República na sua figura, no símbolo do presidente, há uma recusa clara dos portugueses quanto aos partidos e dos seus jogos. É preciso procurar nos congéneres europeus e perceber que na Europa ocidental, não há equivalente. Mesmo que Cavaco mantenha a votação dos partidos que o apoiaram, não se pode esquecer que ele é igualmente a única figura nacional que precisamente pode unir simbolicamente PSD e CDS. E essa soma é apenas contabilística, percentual - numas eleições legislativas, com uma taxa menor de abstenção, a sua percentagem seria muito inferior. Um reforço na sua votação indicaria que um símbolo não se partiu - não foi o caso.
Cavaco Silva foi reeleito, e à primeira volta, é certo; mas com a menor percentagem e o menor número de votos de qualquer candidato presidencial desta espécie de segunda República. A campanha, que foi centrada na crítica ao principal candidato, foi personalizada e feia; mas os ataques não pareciam ser infundados, e se o eram ou são, Cavaco nada fez para acabar com esses rumores. Uma poeira paira sobre a estrutura do presidente reeleito: o seu poder simbólico já não se estrutura nos seus feitos como primeiro-ministro, mas na sua coerência, independência e honestidade. Na sua mais que provável última eleição para qualquer cargo, deixar cair sobre si uma nuvem que quebra a sua base de sustentação, a honestidade, faz com que o seu poder simbólico se parta. Eleito para manter a estabilidade do país, acaba por sê-lo com uma percentagem pouco mais que acima da linha de água dos 50%, com a maior abstenção de sempre, e beliscado na força da sua figura. Não se pode esquecer que este tom foi começado pelo próprio no debate com Alegre, em que Cavaco começou imediatamente por dizer ao seu oponente que ele mentia aos portugueses; e terminado pelo discurso de vitória atacante, magoado, centrado agora também no ataque, mostra que compreendeu isso mesmo. Vamos ter um presidente interventivo, tentado a recuperar o seu capital simbólico a golpes espaçados, mas bem vincados.

A abstenção, mais do que pelo frio ou pelos erros do cartão de cidadão (ironia - um cartão do cidadão que não deixou o cidadão ser cidadão, votando) foi expressiva: os portugueses não se revêem neste sistema. Dezenas de amigos e conhecidos disseram-me que não foram votar, muitos pela primeira vez na vida; alguns que se sentiam felizes por (e cito um deles) "não ter rigorosamente nada a ver com aquelas eleições". Há um desligamento profundo, um corte. Isto é bem mais grave, e como notavam muitos artigos antes das eleições, um sintoma grave de doença nacional.

Manuel Alegre teve sem dúvida uma grande derrota: não conseguiu que os partidos que o apoiavam se somassem - antes se subtraíram mutuamente (como dizia António Vitorino). Aliás, o próprio Alegre foi sub-traído: pelas estruturas e pelo seu próprio fantasma de há cinco anos. Teve um discurso de derrota firme e elegante, qualidades que faltaram ao seu verbo durante a campanha.

Sócrates foi um dos maiores derrotados. Mas tudo fez para fugir a isso. O PS exprimiu tardiamente o seu apoio a Alegre, deixando-o como candidato do BE a maior parte do tempo; enviou emissários com um discurso destruidor nos comícios; não envolveu a máquina. Conseguiu passar pelos pingos de chuva - um ilusionismo de que Sócrates é perito.

Mas parece-me que o derrotado absoluto é a figura do Presidente da República. O símbolo em si. Num período de crise, a eleição maciça de um moderador, de um vigilante capaz de intervir para inverter a hecatombe, faria todo o sentido. Duas ideias ficam a pairar: não faria sentido o cargo de Presidente ser de um só mandato, e por um período maior? Sete anos, como já o foi em França? Os Presidentes não dormiriam a sesta no primeiro mandato, como vem sendo o caso, e evitariam as confusões do candidato-presidente, que Alegre tantas vezes denunciou (e aqui, em abono da verdade, não como ataque, mas mais pela dificuldade de manter esse equilíbrio). Segunda ideia: não poderá haver competências de vigilância activa acrescentadas ao cargo? A possibilidade de demitir Ministros de pastas sensíveis, a criação de Conselhos de Estado sectoriais capazes de reverter políticas desde que apoiadas pelo Parlamento?

Como português, nenhumas eleições me deixaram numa tão forte sensação de tristeza e de fim. Para meu espanto, o único discurso sério da noite foi o de Passos Coelho. Tudo o resto foi de um grupo de pessoas eleitas por 35% da população, e ainda mais, por 40% dos votantes (se descontarmos abstenção, votos nulos e brancos). O candidato voto branco foi o 5º mais votado; segundo as leis da subvenção estatal, teria direito a uma. Não é absurdamente claro o que tudo isto quer dizer?

Cem anos depois, a República está moribunda: é um jogo de alguns, de cada vez menos alguns, contra uns marginalizados tantos.

Comentários

Irene Crespo disse…
Gostei muito da tua análise lúcida e acutilante e comungo dessa sensação de desamparo triste e desiludido.
Anónimo disse…
Partilho da sua análise na essência; a campanha foi muito pouco digna da mais alta magistratura da república.

Excepto num ponto. O discurso do actual Primeiro Ministro, apontando para a continuidade e estabilidade, foi um recado interessante, oposto aos discursos ameaçadores de campanha, mas coerente com os apelos que ele vem feito nos momentos de aperto.

Não sei se Sócrates terá sido realmente um derrotado. Politicamente, terá a vida dificultada, mas com Cavaco no poder, dificilmente a esquerda se unirá numa moção de censura. Na prática, Sócrates agora só cai se a AR for dissolvida e só o será se o orçamento não for cumprido.

Já Alegre, não sei se seria o mais conveniente ao PS, pelas possibilidades de obrigar o partido a alianças incómodas à esquerda, ou de dar a esta a segurança de arriscar uma moção de censura e um governo de direita sem contrapeso.

Toda a retórica apartidária é bonita, mas estas eleições cheiraram facilmente a estratégia para as legislativas, com todo o que de bom e mau há aí.

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