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os livros que me marcaram em 2010


São um mapa mental: acredito até que algumas decisões e atitudes, pequenas mudanças na forma de ser, e claro, novos territórios vêm daqui - dos livros que lemos num certo período e nos marcaram. Quando estudo qualquer autor ou autora, procuro esses traços de evidência: donde que os cadernos de notas ou a biblioteca com anotações sejam as coisas onde me parece ser preciso começar. Sei, sabemos, o que é a obra que produziu: resta saber os portos, as montanhas e os cabos onde o mapa mental se desenvolveu.
Talvez por isso, e apenas por um desejo de reconstituir o meu próprio processo de ser, faço desde há algum tempo umas notas na última página do livro: quando o li, - quando comecei e acabei, muitas vezes o que ouvi ao lê-lo, onde o li, às vezes, o que me disse. Pouco: o impacto é longo para se perceber logo. Há muito tempo antes disso, porém, que escrevo sempre depois de o comprar ou de o receber, a data em que isso foi, e onde.
Chegar à história interior de processos bem mais lentos e subterrâneos do que a consciência pode perceber - talvez o esforço, mínimo e sempre incompleto, do que procuro fazer.

Não posso fazer o balanço do que isso me provocou. Mas os livros que marcaram este ano na minha vida foram os seguintes:

- A Odisseia, Homero
Cotovia, tradução de Frederico Lourenço
Já tinha lido partes na Faculdade, e antes e depois, mas nunca esta tradução. Foi uma releitura como uma verdadeira nova leitura - no comboio, a caminho de Istambul. As «palavras dotadas de asas» ganharam outra força. A Odisseia como narrativa de símbolos é uma das artérias do Ocidente.

- A Ponte sobre o Drina, Ivo Andric
Cavalo de Ferro
Um livro extraordinário que numa sequência de histórias por mais de quinhentos anos nos mostra como é complexa a tessitura dos Balcãs. Tudo isto numa formidável tapeçaria de pedra, que não se consegue parar de saborear.

- Os Últimos Dias de Henrique VIII, Robert Hutchinson
Casa das Letras
Investigação histórica e um certo talento narrativo fazem deste livro um sucesso. A personagem é vista sobre outros ângulos - sendo que é difícil fazer isso com uma personagem tão escrita e debatida como Henrique VIII. Li-o em Londres, acabei-o no aeroporto à espera do voo. A senhora que fazia a vistoria de segurança também o tinha lido em Português, e atravessou toda a zona de segurança para vir trocar opiniões comigo. A Literatura vence o 11 de Setembro.

- O Homem em Queda, Don DeLillo
Sextante
A minha última frase liga-se com este livro. O que DeLillo faz neste livro é quase impossível: como o seu tom narrativo distanciado torna cada personagem um mistério a explodir dos mais profundos conflitos. Consegue fazer de pequenas personagens verdadeiros microscópios sobre o acontecimento do século. Não se sai bem deste livro.

- Wolf Hall, Hillary Mantel
Civilização
Oscilando entre a tradução portuguesa (severamente discutível) e o original inglês, li o livro vez e meia. Obcecado com romance histórico como sou, tive já grandes tristezas. Mantel é uma narradora inacreditável, e nos pequenos pormenores demonstra uma investigação sem par e um conhecimento profundo da época. Cromwell (o primeiro ministro de Henrique VIII), este último e Catarina de Aragão são figuras completamente modificadas. Li-o em Abril (em parte) e em Setembro (tudo de novo), e o meu espanto aumentou na releitura. Quando for grande, quero ser Hillary Mantel.

- Frederico o Grande, Nancy Mitford
Livros da Raposa
Já tinha devorado Luís XIV, onde parecia que entrávamos dentro de um círculo de amigos próximo, acessível. Mas este Frederico o Grande consegue outra proeza: o de fazer um retrato de um homem e o deixar em aberto - como se dissesse ao leitor: "agora termina". É às vezes um pouco "precioso", mas nunca deixa de ser absolutamente fascinante, próximo e enternecedor.

- Um Circo no Nevoeiro, Renata Correia Botelho
Averno
Uma das surpresas: um registo poético microscópico, cheio de sensibilidade e de uma construção metafórica e simbólica tão aparentemente simples como detalhadamente rica. Este livro acaba por perseguir o leitor na forma como precisa das memórias do próprio para que o poema se construa.

- Proust era um Neurocientista, Jonah Lerner
Lua de Papel
Um presente entusiástico do meu pai. Um espanto, em tom de conversa: como a Literatura está adiante da Ciência e afinal, ambas abrem caminhos uma à outra. Lerner faz isto do alto dos seus vinte anos com uma simplicidade devastadora e clara. Foi particularmente reveladora para mim a parte relativa a Proust (a inicial, sobre Walt Whitman, que marcou grande parte dos leitores com quem falei, não me espantou tanto, porque de facto o século XX começou na Literatura do Modernismo). Mas sempre uma revelação e um prazer intelectual e de aprendizagem realmente sem par.
- Why Mahler? How one man and ten Symphonies changed the World, Norman Lebrecht
Faber, 2010
Um passeio pela biografia, composição e contexto histórico-musical do tempo de Mahler. Um livro apaixonante e despretensioso que nos parece abrir as portas da oficina de um compositor.
- Millennium 1: Os Homens que Odeiam as Mulheres, Stieg Larsson
Oceanos
Já vou uns anos atrasado, mas foi talvez a única coisa boa de estar doente: perceber a mania "Millennium". Larsson é um mestre de labirintos, as personagens são muito bem construídas, a narração é inquietante. É impossível separarmo-nos do livro, e ele deixa sequelas (a terrível história familiar dos Vanger fica presa como uma pergunta - quantas famílias haverá assim). É a plausibilidade e a simplicidade, e um domínio extraordinário do enredo que tornam o livro extraordinário.

Boas leituras para 2011!

Comentários

Pé do André disse…
Obrigado e igualmente.

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