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«Com que moeda pagarei a vida?»


A frase é de Natércia Freire - e não preciso de outra para traduzir em tanto silêncio de gratidão incomunicável o que devo a Wilhelm Furtwängler, maestro alemão de que em 2011 se comemoram 125 anos do nascimento (Berlim, 25 de janeiro de 1886).
Antes da música, a figura: filho de arqueólogos, estudou música muito cedo. Em adolescente, passeava pela cidade com uma cópia dos quartetos de cordas de Beethoven no bolso. Começou a compor, e estreou-se como maestro aos vinte anos. Veio o III Reich. Muitos músicos saíram da Alemanha por motivos óbvios, Furtwängler ficou. Há numerosos episódios da sua resistência silenciosa e concreta, como a chamada telefónica para as autoridades quando descobriu, que os músicos judeus da orquestra não estavam num ensaio. «Ou eles vêm ou eu vou», contaram testemunhas da cena. Há quem continue ainda hoje a sujar-lhe o nome, dizendo que deveria ter saído da Alemanha. Claro que depois da Guerra foi julgado, e claro que ainda hoje há quem se divirta num jogo pérfido a fazer acusações vazias. Certo é que há figuras que nos momentos difíceis não fogem, porque entendem a sua missão de pontes. E são essas pontes que sofrem o antes, o durante e o depois. Tenho uma paixão por estas figuras injustiçadas por gestos maiores do que eles mesmos, que estabelecem continuidades silenciosas - é neles que se sustenta a história do mundo.

Depois, a música. Já escrevi sobre Furtwängler neste blogue, não tenciono repetir-me. Quem queira conhecê-lo, e celebrá-lo na sua visão da música, três discos de dezenas: as Sinfonias Nºs 5 e 7 de Beethoven (Deutsche Grammophon), gravadas em Berlim sob bombardeamento; a 3ª Sinfonia de Brahms (DG, também); a 4ª de Bruckner (várias versões e editoras).

Agora, a minha gratidão. É um gesto profundamente pessoal, porque a prosa que se segue é da minha autobiografia, escrita ao longo dos anos, e inédita (e assim quero que permaneça muito tempo - só ganha sentido quando se puder descrever a recta dos meus dias do princípio ao fim, quero dizer, do princípio ao Princípio). Aqui segue, na prosa de um eu de há dez, doze anos atrás:
«um dia, se eu tiver a coragem e a força de escrever a autobiografia da minha alma, a descrição do planeta extra-estelar que a minha sensibilidade é, o Grande Maestro será o anjo tutelar e tributário, a quem tanto devo; a minha alma (e o meu corpo, tantas noites de amor ao ritmo dos seus fantasmas de som levantados) deve-lhe um livro inteiro. sei, com a certeza de que serei mergulhado no Deus Universo depois de morrer, que a música que se ouve aí é dirigida por Furtwängler; que ouvirei os rios correr dirigidos por Furtwängler; que todos os pássaros morrem, sobretudo os cisnes, cantando dirigidos por Furtwängler; que os poetas molham a dor dos estiletes e dos teclados no sangue do tempo interpretado por Furtwängler; e que o próprio Sol se levanta, neste canto do espaço, movido a acordes tocados por Furtwängler. a minha vida deve a Furtwängler ter tido força para cair em mim e levantar-me, depois de tocar directamente em mim e na minha dor, tantos e tantos dias. o allegro finale da Segunda de Brahms, o primeiro e último andamentos da Terceira, uma Quarta onde encontrei o verdadeiro estado do meu coração, a sua versão da Grande Fuga de Beethoven, a sua integral inteira de Beethoven, o seu “Coriolano” em fogo - mas sobretudo a infinitude de horas e vezes em que o mestre me salvou, são impagáveis. a música tocada por Furtwängler levou-me sempre ao país de onde eu era, Deus, eu e anterioridade misturadas, e a ele lhe devo muito de ter um caminho e um rumo, sem falar de livros e poesia. devo acrescentar que nunca escrevi um livro com Furtwängler – seria demasiada emoção para mim; ele viveu comigo sempre no imenso período entre os livros – e por isso merece muito mais estar presente em tudo o que fiz do que os tributários musicais que praticamente sempre inscrevi no final dos meus livros...»

Comentários

Irene Crespo disse…
comovente esse reconhecimento sentido.
belíssima a forma como comunicas o incomunicável.

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