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Mensagens

A mostrar mensagens de 2011

Fechados para Balanço

Caras e caros leitores deste blogue,
É bem certo que estas Crónicas andam cronicamente atrasadas, adiadas, intermitentes. Situação que não queria ver continuada - nem o blogue descansa, nem eu, nem muito menos os pacientes leitores.
Acontece que estou nos últimos meses da minha tese de Doutoramento, sobre uma religiosa do século XVII. Doutoramento que começou por ser tórrido, e que agora é um combate. Sinto que o meu cérebro (o pouco que já tinha) foi colocado numa cela, posto a pão e água, vigiado por impúdicas penitentes.
Deste convento mental e concreto, só me resta tornar clara a situação de facto: este blogue está suspenso até Abril de 2012.
Aos que quiserem regressar, e ver como um homem ressuscita depois de uma relação com uma mulher do século XVII, cá estarei para contar.
Um abraço a todas e todos,
Pedro Sena-Lino

morreu a energia coerente

Penso, a cada passagem de alguém desta vida breve para a vida total, que vou aprendendo a morte; que a morte dos outros é uma escada, uma aprendizagem da minha própria morte. E por isso estranho, hoje, como a morte de alguém que eu não conhecia me pode impressionar tanto.
Falo de Maria José Nogueira Pinto (1952-2011). Não sendo de todo da minha área política, admirei sempre nela a grandeza do olhar, simultaneamente sobre o mais pequeno do humano, e o todo de sentido em que tudo se integra. Admirei a frontalidade, a independência, os valores - nessa totalidade que se chama coerência e que cada vez mais é um bem de primeira necessidade em falta. Admirei sempre a sua energia coerente, que - penso que ela nunca soube - era um dos pilares éticos deste país.
Só posso por isso desejar que cada intervenção, cada gesto, cada atitude, possa deixar marcas, possa deixar esse trabalho invisível e fecundo que perdurará. É em casos assim que a morte não vence, mas frutifica.

um hino

Os leitores - pacientes, benévolos - deste blogue sabem que eu vivo de música clássica. Mas o que ouvi há dias fulminou como um raio a minha história inteira, a minha consciência de mim, como pertencente a uma geração.
A nova canção dos "Deolinda" é o hino da minha geração - "a geração rasca" e também a geração mais bem preparada deste país - como lembrava Rui Tavares. Um a um os lugares comuns (os lugares de inferno) a que somos sujeitos, e esta crise injusta e medieval, que faz com que o poder de uns poucos senhores multiplique as dificuldades de todos. Pode ouvir-se (preparem lenços para a alma) aqui.
Mas é também a geração que viu o Norte de África tremer e lutar (lembro, estamos mais próximos em distância de Rabat do que de Madrid, tão de Tunes como de Paris). Que começou com a queda do Muro de Berlim e que - não tenho dúvidas - viu a mudança começar no Norte de África. Como lembrava Stieg Larsson no 2º volume Millennium, a economia não são as bolsas de valores:…

a queda de um símbolo

As eleições presidenciais foram uma sequência de quedas - simbólicas.
Em primeiro lugar dos partidos. Quando um quarto dos votos foi para candidatos contra o sistema (Nobre e Coelho), e ainda para mais nas eleições que representam a República na sua figura, no símbolo do presidente, há uma recusa clara dos portugueses quanto aos partidos e dos seus jogos. É preciso procurar nos congéneres europeus e perceber que na Europa ocidental, não há equivalente. Mesmo que Cavaco mantenha a votação dos partidos que o apoiaram, não se pode esquecer que ele é igualmente a única figura nacional que precisamente pode unir simbolicamente PSD e CDS. E essa soma é apenas contabilística, percentual - numas eleições legislativas, com uma taxa menor de abstenção, a sua percentagem seria muito inferior. Um reforço na sua votação indicaria que um símbolo não se partiu - não foi o caso.
Cavaco Silva foi reeleito, e à primeira volta, é certo; mas com a menor percentagem e o menor número de votos de qualquer can…

Uma Campanha (pouco) Alegre

Esta campanha não se tem mostrado muito alegre. Não é uma piada com o candidato PS/BE, é mesmo uma citação de um título de Eça de Queiroz. E a campanha, que começou morna e interrompida por Natais, entrou no ano Novo com acidez crescente.Alegre fez debates desastrosos. Parecia cansado, e os pontos fortes em que se estrutura o seu discurso pareciam desaparecer. Frente a Cavaco, o seu verbo fácil apagou-se – mas valeu-lhe uma atitude serena, apesar dos despistes. Não galgou as dificuldades. E estes últimos dias de campanha não têm corrido bem. Há um discurso repetido, há erros de estratégia. Parece falar sempre numa terra de ninguém, evitando temas que firam ou o PS ou o BE: quando o que deveria fazer era procurar que pontos pode usar em comum, e construir um discurso consistente que se apoie nessas forças (foi isso que Obama fez, é isso que Miliband está a fazer em Inglaterra, é isso que Aubry vai fazer se for candidata em França). Mas isso é um problema da esquerda – en…

«Com que moeda pagarei a vida?»

A frase é de Natércia Freire - e não preciso de outra para traduzir em tanto silêncio de gratidão incomunicável o que devo a Wilhelm Furtwängler, maestro alemão de que em 2011 se comemoram 125 anos do nascimento (Berlim, 25 de janeiro de 1886).
Antes da música, a figura: filho de arqueólogos, estudou música muito cedo. Em adolescente, passeava pela cidade com uma cópia dos quartetos de cordas de Beethoven no bolso. Começou a compor, e estreou-se como maestro aos vinte anos. Veio o III Reich. Muitos músicos saíram da Alemanha por motivos óbvios, Furtwängler ficou. Há numerosos episódios da sua resistência silenciosa e concreta, como a chamada telefónica para as autoridades quando descobriu, que os músicos judeus da orquestra não estavam num ensaio. «Ou eles vêm ou eu vou», contaram testemunhas da cena. Há quem continue ainda hoje a sujar-lhe o nome, dizendo que deveria ter saído da Alemanha. Claro que depois da Guerra foi julgado, e claro que ainda hoje há quem se divirta num jogo pé…

os livros que me marcaram em 2010

São um mapa mental: acredito até que algumas decisões e atitudes, pequenas mudanças na forma de ser, e claro, novos territórios vêm daqui - dos livros que lemos num certo período e nos marcaram. Quando estudo qualquer autor ou autora, procuro esses traços de evidência: donde que os cadernos de notas ou a biblioteca com anotações sejam as coisas onde me parece ser preciso começar. Sei, sabemos, o que é a obra que produziu: resta saber os portos, as montanhas e os cabos onde o mapa mental se desenvolveu. Talvez por isso, e apenas por um desejo de reconstituir o meu próprio processo de ser, faço desde há algum tempo umas notas na última página do livro: quando o li, - quando comecei e acabei, muitas vezes o que ouvi ao lê-lo, onde o li, às vezes, o que me disse. Pouco: o impacto é longo para se perceber logo. Há muito tempo antes disso, porém, que escrevo sempre depois de o comprar ou de o receber, a data em que isso foi, e onde.
Chegar à história interior de processos bem mais lentos …