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uma tradição pessoal


É uma tradição pessoal; soa-me a antigo, mas não me lembro de facto de quando vem. Todos os anos, neste último dia do ano, sento-me a fazer um balanço escrito do ano, sobretudo nas coisas difíceis (e seu significado) e nas coisas boas, que significaram mudança. E faço isto ao som dos discos que mais ouvi ao longo do ano: a banda sonora do ano ajuda e celebra tudo isto.
Este ano, o que ouvi e se gravou em mim:

- Mozart: Requiem
Coro e Orquestra da Rádio da União Soviética, Nikolai Golovanov (1951)
Archipel
Comprei-o em Berlim na loja mais próxima do paraíso: a Dussman, com a maior colecção de música clássica que vi no mundo, durante a minha viagem Berlim-Istambul.
Música religiosa pela orquestra da URSS: mas sem a respiração beata de algumas versões, o que de facto vibra aqui é a violência final desta música; a gravação de 1951 e o facto dos intérpretes terem mortes na voz (da guerra que há seis anos atrás acabara) dá-lhe uma ressonância maior. O coro é assustador, os baixos e os tímbales apocalípticos. Não é a mais perfeita das versões, nem a mais textual - mas há aqui um radical excessivo. Como quando projectos, ideias e seres são roubados deste mundo.

- Shostakovich: Concerto para Piano Nº1
Martha Argerich, Sergei Nakariakov, Orquestra da Suíça Italiana, Alexander Vedernikov (2006)
EMI
Este concerto sempre foi uma espécie de banda sonora da minha identidade. Ouvi-o nos momentos novos: os que vieram depois de grandes mudanças. Parece comunicar uma força profunda e que eu não sei de onde vem e onde estava antes. O piano aqui é um instrumento de pranto, um instrumento de percussão, um enigma ou uma máscara irónica. Argerich leva tudo isto mais longe do que seria possível - mais longe do que a versão do próprio compositor com André Cluytens (EMI, anos 60), um clássico absoluto do século XX.
Veio este ano em Janeiro pela Amazon, foi o primeiro disco do ano, e não parei de o ouvir.

- Shostakovich: Concertos para Violoncelo Nºs 1 e 2
Natalia Gutman, Orquestra da Rádio e da TV da URSS, Kyrill Kondrashin (nº1), Filarmónica do Estado de Moscovo, Dmitry Kitajenko (1976/1986)
Classics Live
Este concerto é sempre de uma violência terrível cada vez que o oiço. É a personificação em música de um terror particular: o de ser devastado pelo mesquinho, pelo mínimo da vida - o que nela mata. Shostakovich joga este jogo, afasta-se dele ridicularizando-o (no tema principal que mais parece não ser melodia nenhuma), e sobe com riso irónico no último andamento. Ouvi este concerto pela primeira vez nos anos 90, em Lisboa, ao vivo, com Rostropovich: eu tinha quinze anos, achei isto pavoroso. Hoje este episódio e esta música ajudam-me a ver como subimos por dentro das coisas; bem como a fazer uma limpeza interior de toda a mesquinhez que parece perseguir-nos pelas esquinas das coisas: coloco essas coisas entre mim e a música, e ela apaga-as, depois de as pisar e delas fazer surgir força.

- Bach: Ouvertures (As Suites Orquestrais)
Bach Collegium Japan, Masaaki Suzuki (2005)
BIS SACD
Nunca amei estas peças: ou soavam a toque de telemóvel, ou a um pomposo a que nunca me adequei. Esta versão infinitiza tudo: cada respiração, a lógica interna de cada andamento e de cada suite, a vibração interior de tantos sentimentos luminosos (da gratidão ao perdão, da alegria à expectativa).
Este foi o meu disco de Páscoa, depois do Messias.

- Beethoven: Sinfonia Nº 3 "Heróica"
Concertgebouw Orchestra, Pierre Monteux (1962)
Desde 1995 que namoro este CD: antes das viagens ou das compras internet, era devastar lojas em Portugal e encomendar, sempre com a mesma resposta: não está disponível. Aos dezanove anos, quando trabalhava como empregado de mesa e comprava os CDs com as minhas gorjetas semanais, creio que vi uma vez este CD, caríssimo - não tinha dinheiro para ele. Durante anos, esta perseguição; a Amazon depois apareceu, estava já fora de catálogo, e as alminhas que o tinham colocado para vender em 2ª mão chegavam a pedir 70 euros por ele. Até que um dia, do nada, voltei a procurar, e estava a um preço muito mais acessível: veio a 21 de Setembro de 2010, e houve uma festa, quinze anos de espera: é a "Heróica" mais dançante, cantabile e vibrante. O som é inacreditável. Nunca mais nos largámos. Celebro com ela a espera longa que alcança muito.

- Bartók: Concerto para Orquestra (e Música para Cordas, Percussão e Celesta)
Chicago Symphony Orchestra, Fritz Reiner (1955)
RCA Living Stereo
Também um som tremendo, como os da RCA desta época. Tenho-o há anos e nunca gostei, porque nunca gostei de Bartók. Bom, pensei há um mês, já passei os 33, tenho de ver se já cresci para perceber esta música. Tem sido a minha última obsessão, ouvindo outras versões (Celibidache, Boulez, Szell): mas Reiner tem tudo: todos os jogos que Bartók joga neste jogo-música, a perfeição orquestral, o espanto e o divertimento. Para os momentos de planificação - para não os levar demasiado a sério.

- Sibelius: Sinfonia Nº2
Royal Philarmonic Orchestra, Sir Thomas Beecham
BBC Legends
Este disco é uma espécie de clássico absoluto da minha vida (tem acoplada uma 8ª de Dvorák desconcertante, num registo de alma completamente díspar; nunca consigo ouvi-las juntas). Também veio pela amazon há quatro anos. Andava sempre comigo, antes da invenção do ipod. No último andamento, não há palavras: entra-se na respiração do universo. Para quando tudo faz sentido, ou é preciso procurar o sentido no início de todas as coisas.

- Mahler: Sinfonia Nº2 "Ressurreição"
London Philarmonic Orchestra, Klaus Tennstedt (1984)
LPO Live
Este disco é deste ano, e se tivesse de fazer uma daquelas selecções do melhor de 2010, este CD ganhava (espanto-me como os críticos musicais portugueses o esqueceram por completo). Muitos críticos ingleses falaram dele quando ouviram a interpretação, e foi saudado nas revistas francesas e inglesas com espanto. É ouvir Mahler pela primeira vez.
Voltando ao CD, que tem uma história: já o grande maestro Tennstedt lutava contra o cancro que o havia de vencer. A "Ressurreição" para ele e para a orquestra é o que lutam dentro desta música. Depois desta luta, em que o palco sou eu, não há mais música.

- Bach: Concerto Brandenburguês Nº5
(duas versões): Café Zimermann (2001), Alpha
Le Concert des Nations, Jordi Savall (1991), AliaVox
Desde que comecei a ouvir música que gosto deste concerto, com o seu solo final de cravo que parece antecipar toda a música do futuro. Este ano ouvi-o mais do que nunca; já Herberto Helder fala da sua perfeição n' Os Passos em Volta. Por causa dele, e não só, escrevi um conto - porque as obsessões escrevem-nos e escrevem-se (o conto pode ser lido aqui).

- Haydn: Sinfonias Nos. 88, 92, 104
The Cleveland Orchestra, George Szell (1949 e 1954)
United Archives
Não largo as Sinfonias de Haydn: são uma espécie de breviário, para subir ideias, aprender a compor, reaprender a olhar pela arte. Amo particularmente a Sinfonia 88, uma peça extraordinária de humor, onde parece aprender-se todos os sentidos da música. Encontrei este CD este ano, esgotadíssimo. Veio pela Amazon do outro lado do mundo (do Havai!) e não só reouvi esta música como de novo (um dos prazeres que as várias interpretações na música clássica podem dar), mas compreendi a sinfonia 104 (como já falei aqui, banda sonora de uma viagem a Londres). Este ano, na casa de Haydn em Viena, sentado no seu banco de jardim, pareceu-me ouvir tudo isto no pátio onde todos os sons das ruas em volta vinham dar.

- Nusrat Fateh Ali Khan & Party: The Last Prophet
Oneworld
Deu-me um grande amigo este CD há anos: com ele e com os dois discos seguintes fiz a minha viagem para Istambul. Cantam em êxtase esta espécie de mantra: as vozes são instrumentos, primeiro, e depois tudo se torna instrumento: mesmo eu que oiço. Para quando o cosmos se abre dentro do peito.

- Soeur Marie Keyrouz: Chant Byzantin - Passion et Ressurection (1989)
Harmonia Mundi
Cânticos bizantinos, em grego e árabe. Entra-se no coração do tempo. Atravessei de Berlim a Istambul com esta música, ligando-me às raízes, com a voz da irmã Keyrouz e a música de sílabas estranhas, longas, antigas.

- Le Mistère des Voix Bulgares (1990)
Nonesuch
O disco é antigo, para mim novo. Cada vez que o oiço entro dentro do espaço mental onde viajei. Vozes puras como os Balcãs inteiros, ressuscitados, unos.

- Vampire Weekend: Contra (2010)
XL Recordings
Quando ouvi o primeiro álbum dos Vampire Weekend o ano passado, não acreditava: os jogos de intertexto com a música africana e com a música clássica, a invenção das melodias, a sátira e o surrealismo das letras (puzzles perfeitos de combinatórias) - era perfeito demais. Relembro também o excelente concerto da banda este ano em Lisboa. Este álbum, um dos melhores de 2010 é um celebração da alegria pura - infinitada.

Bom 2011!

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