Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Febre

Terceira vez depois dos 33.
Isto começa a parecer-me mal. Sempre ouvi dizer que os 30 se sentiam, mas os meus adoecem, suam, gargantam e enfebrecem.
Pergunto-me se haverá uma espécie de complexo de calvário nos 30. Tem que se passar, como o Cristo. Pode ser um objectivo para estes dias de cama, em que conheço o tecto da minha casa de cor, os ruídos dos vizinhos e da rua, a ordem dos livros na prateleira. Ler, nem dá: os olhos estão inchados e as letras dançam. E eu que feliz quando o médico disse "três dias de molho" fui buscar o carrinho do supermercado com as dezenas de livros que não pude ainda ler.

Mas o pior é quando a febre vem. Só tinha lembranças disto da minha infância, quando o quarto parecia andar à volta, se sentiam as aragens todas, e o coração batia depressa ao ritmo do frio. O corpo parece tomar posse do corpo. Da batalha que se passa cá dentro eu sou apenas o campo. Não posso fazer nada. Não conheço o rosto das bactérias e dos glóbulos brancos que vão morrendo a cada segundo. Batalhas interiores? Conheço, gosto. Batalhas microscópicas? Os limites do corpo.
E isso é que me dói: quando o corpo está a dizer "eu é que mando". Não que eu ande fora do corpo, mas isto é uma verdadeira OPA.


2 comentários:

gnoveva disse...

foi por isso que o Planeta Agostini fez o Era uma vez a vida. :)

Susana Caldeira Cabaço disse...

Acertas em cheio. A doença é a pior prisão, invisível e total. Beijos