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uma barreira até ao som


Quando era tudo antes: quando não havia espaço entre mim e esta música, quando eu podia tocar-lhe, e ela podia absorver-me, afundar-me, desaparecer-me. Quando ela ocupava todo o meu espaço, físico e interior, e ribombava respirando dentro dos meus pulmões, revivificando as minhas articulações, bombeando o coração do coração.
Agora entre mim e ela há um espaço: oiço-a, mas não me invade. Ponho o som mas alto, mas não é dos ouvidos a falta, mas de habitação interior. Como eu queria ser desta música de novo.
O que toma este espaço dentro de mim? Que tipo de cera, de surdez, de monstro obstáculo na alma?
O meu reino por ouvir a 3ª de Brahms por Furtwängler pela primeira vez; por ouvir de novo, originalmente, como se acabada de compor para mim, a Sinfonia Patética, o 2º Concerto para Piano de Brahms, todas as Sinfonias de Mahler, a 4ª, a 5ª, a 7ª de Bruckner - e claro, o Beethoven inteiro. Voltar às tardes grandes de Verão da adolescência, com Mozart por todos os lados e os olhos a rebentarem espantos sucessivos.
Porque é que acabou o antes?

(o quadro é de Caspar David Friedrich, "A dreamer", e está no Museu Hermitage)

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