Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

No lançamento do manual de Autobiografia


No passado dia 17 de Novembro foi na Bertrand-Chiado, lançado o Manual de Autobiografia, com o título A minha vida num livro, publicado pela Porto Editora. O texto que se segue encerrou a sessão.

Quando em 2003, depois de três anos a dar cursos de escrita criativa, me decidi a dar um curso de autobiografia, alguns colegas escritores e professores de escrita criativa disseram-me: «estás absolutamente doido. Tens noção de como na autobiografia não há fronteiras desenhadas?». Sabia. Era essa a minha história, a história de um rapaz de 18 anos que entrou na Companhia de Jesus e a quem foi dito, como a tantos desde há 500 anos atrás: chegaste aqui, vais começar uma vida nova; não podes esquecer a tua vida anterior, não vens aqui para fugir de nada, mas para aceitares tudo e daí tirares novas forças. Então começa por escrever a tua autobiografia. O meu trabalho com a autobiografia, ou melhor dizendo, o trabalho da autobiografia comigo, começou aí. E por isso estou grato a essa espécie de mãe que foi essa instituição, a Santo Inácio, que teve a coragem de escrever a sua, e ao Padre Dário Pedroso, que me fez alargar, aprofundar, morrer e ressuscitar cada linha escrita de vida.

O trabalho com a autobiografia é o mais difícil na vida de um orientador de escrita criativa. Não se produzem exercícios onde se reconheça ou alcance uma progressão técnica ou temática; não se criam também jardins egocêntricos auto-comiserativos. Não: a autobiografia como processo de escrita criativa tem quatro braços, como a deusa Vishnu: um primeiro de confiança, daquele que escreve em si mesmo; depois de confiança, deste em relação ao orientador; um terceiro, mineral e mineiro: de perceber que a memória é uma gruta e a autobiografia como processo as ferramentas; e que um se tornará o outro, misturados nas profundidades de si mesmos, fusos mas não confusos pela colheita luminosa e brilhante que de um no outro sairá. Um último braço, o resultado.

Aqui páro. Mas quero antes dizer que o trabalho com a autobiografia é o coração do meu trabalho como orientador de escrita criativa e também o coração da Companhia do Eu. Nós, toda a equipa da Companhia e eu próprio, não existimos como uma forma bem arquitectada de instilar sonhos falsos a pessoas com projectos altos; não procuramos atrair líricos e sugar-lhes mensalidades ao fim do mês com cantos de tritões; não queremos muito menos a criação de um grupo terapêutico soft e confortavelzinho, onde o pior significado do lexema escola redobre tiques e mantenha adorações. O que queremos é que cada um que decide escrever esteja disposto a escrever-se. A procurar no mais fundo de si o que o caracteriza, o que é a marca da sua unicidade, aquilo que é a sua raiz: e depois de o descobrir, escrevendo, levá-lo mais longe, quero dizer mais fundo, e criar um mundo novo para si e para os outros. Não há nada mais simples, mas as coisas verdadeiramente simples é que são as mais complexas, porque os seus ângulos são espelhos para o infinito.

O que quero como resultado destes cursos, e também deste livro que aqui hoje ganha destinatários e asas, é a criação de comunidades escritas feitas a partir de sujeitos fortes, que tiram o sentido através de um trabalho sério, gozoso e continuado de si mesmos. Penso sempre que é por isso que estamos nesta terra não sozinhos mas multiplicadamente acompanhados por biliões de seres: porque a fome de cada um ultrapassa a pele, e o que nos separa é a necessidade de podermos matar a sede uns aos outros com o sentido a buscar no fundo de cada um. Com a partilha de um conhecimento único, o conhecimento profundo de cada um por si mesmo – com o tirar água de si mesmo.

Acredito que uma narrativa pode salvar: é assim com a Bíblia, é assim com o Corão, é assim com milénios de Literatura que criaram a identidade em que cada ser encontra o veículo e o enigma em que pode achar-se e superar-se, e assim transgredir os limites da sua própria dimensão original.

Acredito que a narrativa de um sujeito por si mesmo é duplamente salvífica: porque resgata o sujeito das prisões que a si mesmo se impõe, que o seu super-ego deslimita, que o açaime da sociedade actual impõe. E porque pode, de autor-narrador ao seu leitor, provocar o mesmo movimento de liberdade interior, levando o sujeito leitor a tornar-se ele mesmo sujeito-narrador de si próprio.

Há anos, quando estudei o conceito de identidade, tornou-se para mim muito claro que um dos maiores desafios actuais do Ocidente é o resgate e a renovação desse conceito. Nele está resumida e concentrada toda a potência de bem-estar e qualidade de vida, de conhecimento e de liberdade, pelo qual o Ocidente lutou e construíu durante quase três milénios. Escrever a autobiografia, hoje, é reclamar a propriedade de si próprio: em última e em primeira análise, sem qualquer tipo de lirismos, é isso que se pretende. Um indivíduo contra a massa, contra a sociedade ocidental de hoje em que o controle sobre o sujeito é muito mais alargado, complexo e limitante do que era há vinte, trinta ou quarenta anos. Dos sigilos perdidos de todos os aspectos da vida financeira pessoal; ao controle das movimentações geográficas e de propriedade; à tentativa de renovação do poder fiscalizador do sujeito pelas religiões, sobretudo pela Igreja Católica; às vigilâncias e proibições veladas a direitos fundamentais como a greve; à imposição de padrões comportamentais, ou à suposta redução da vida de pensamento sobre a polis já sem ideologias – agora o que temos são partidos-simplificação. Ou, por último e bem pior, ao rasuramento lento e orquestrado de toda a vida cultural, das características nacionais, à leitura, ao cinema, ao teatro, sob a capa dos controles orçamentais. Da fast food ao fast-welfare, à fast-people.

Escrever a autobiografia é religar o sujeito à sua própria liberdade: é um acto de resistência, um acto de desobediência civil e interior.

Espero que este livro possa começar um processo que espero nunca mais termine. Porque construir-se, no tempo e no espaço, encontrar a sua própria duração no tempo, é o modo como caminhamos neste mundo, a nossa pegada sobrenatural.

2 comentários:

Josafá Crisóstomo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Josafá Crisóstomo disse...

Estou bastante surpreso com o que minha navegação pela web trouxe-me hoje: o seu blog. Li os últimos três posts e, por ora, preciso dizer que preciso desse seu Manual. É engraçado: seu modo de escrever faz-nos desejar dizer-lhe que queremos ler ainda mais o que você escreve. Fiquei particularmente impressionado e, sobretudo, com a urgência com que você escreve, bem como com o traço da personalidade europeia que nos é desvelada (ao menos por esses três exemplos de crônicas que li): algo contemporânea e premente. Qual a editora do Manual? Há distribuição no Brasil? Estou em São Paulo.

PS: Precisei remover o texto no registro anterior porque notei que faltava uma palavra... Mas era essência esse mesmo. ;-)