Avançar para o conteúdo principal

100 anos de República, I


Há cem anos começou a República.
O que se celebra hoje?, muitos perguntam. O fim da Monarquia, o início de um novo regime? A Monarquia há muito que tinha acabado como regime, e restava-lhe reinventar-se (o que manifestamente não podia, com uma opinião pública maioritariamente republicana) ou terminar. A ditadura de João Franco tinha sido o último tiro de pólvora seca num regime moribundo. Não havia espaço para mudanças.
Hoje, também não há espaço para mudanças. Há uma coisa que se chama União Europeia, o nosso porquinho-mealheiro, o nosso porquinho da Índia, o nosso único mar de pedra, quando o mar real há já tempo se fechou. Voltámos à tomada de Ceuta, em pleno início do século XV, quando era facto provado que este país não se aguentava com os recursos que tinha, e precisava de ir buscar fora o que não tinha dentro.
Hoje, também estamos no mesmo estado de fim de regime: uma figura presidencial que não serve para nada, um corta-fitas paternalista com espaço para discursos. Cavaco fez-se eleger como guardião de boas contas, e o regabofe das contas mostrou como chegámos aqui. O que precisamos é de uma mudança de regime: mas este está suspenso precisamente pelo seu fio de manutenção: a União Europeia e as suas regras. Os Governos servem para administrar a desgraça das contas e pouco mais. Somos uma nau atolada que muda de capitão, e elege-se apenas aquele que convence um bando de loucos que consegue tirá-la do atoleiro; até se revelarem falsas as suas propostas, e voltamos ao mesmo. A única coisa que Guterres, antes deste, fez bem, foi definir o regime como "pântano político". Ainda aqui estamos.
Hoje, como no fim da I República em Maio de 1926, estamos com um regime que falha, um Presidente que serve para zero, e preparamo-nos para ir a eleições em Maio (soberba ironia) para mais umas eleições sem resultados.
É chegado o momento de um governo de salvação nacional que tem de ter três simples objectivos: equilibrar as contas; repensar a viabilidade económica do país; proceder a uma mudança profunda do regime.
O que podemos aprender da I República foi o que ela não fez: precisamente isto. A União Europeia impede-nos de repetirmos o filme Salazar, versão II, revista e aumentada; mas mais do que isso, devia levar-nos a mudarmos por completo. Os tempos repetem-se: os holandeses têm uma coligação com um partido de extrema-direita, anti-islâmico; os belgas estão partidos, e se unirem é com um partido que quer o fim da Bélgica; os ingleses estão rotos, de ideias e dinheiro; os franceses têm o Governo mais à direita desde Vichy; a Senhora Merkel não sabe o que fazer com o país, que ainda se mantém assente numa economia que subsiste porque há países que precisam de uma Alemanha que faça carros e máquinas: dêem-lhes dez anos e as crias asiáticas limpam isso de uma vez.
Como podemos comemorar a República? Querer mudar de regime. Só que desta vez a mudança tem de sair das vísceras, da fome de ideias e ideais, da consciência do limite.



Comentários

JoZé disse…
http://exiladonomundo.blogspot.com/2010/10/monarquia-vs-republica.html

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…